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segunda-feira, 31 de outubro de 2022

“VENHA O DIABO E ESCOLHA”

O mundo está a ficar sem opções!

Os sistemas políticos em vigor estão viciados e já não servem os povos de modo algum, se é que alguma vez serviram, pois, o que fica para os anais da história é que somente quem os implementou é que saiu beneficiado.

Porém, talvez, estejamos no limite da suportabilidade desses sistemas e sem formula que inverta a situação. Vejamos o caso do sistema político brasileiro, em que, recentemente, levou a sua população a um cenário tão absurdo quanto o de terem de decidir o futuro da nação entre duas únicas opções – pasme-se! – opções assentes em outras tantas pessoas, sendo que ambas carregam consigo um sem número de comportamento e discursos completamente erróneos.

Está tudo errado!

Nem algum sistema político atualmente, deveria assentar na eleição de apenas uma cabeça, nem as cabeças disponíveis deveriam ser deste tipo.

É o risco que a humanidade corre, e sempre correu, a de confiar numa só pessoa o futuro de todos nós, sob pena dessa pessoa ter uma cabeça repleta de pensamentos e atitudes nefastas para a humanidade.

É caso para constatar, que as pessoas boas estão fora do sistema, quiçá recolhidas preparando-se para o caos que aí virá, sobejando apenas estas pessoas afoitas que sem pudor se arrogam no direito – legitimado pelo povo, é certo. Os grandes culpados! – de traçarem a seu bel prazer o futuro de milhões de humanos.

Já são inúmeros os casos semelhantes a este, em que as alternativas apresentadas são um leque de malfeitores, não deixando outra hipótese ao eleitorado que queira, mesmo assim, exercer o seu direito de voto enquanto lho é permitido, não se vendo qualquer sinal significativo por via da abstenção, em que fique claro que os povos finalmente despertaram para esta triste realidade, negando-se, por dignidade, a serem parte responsável pela eleição de pessoas com tão pouca credibilidade.

O mal menor é um perigo ainda maior!

A humanidade já lá não vai com medidas avulso e conjunturais, precisamos de medidas verdadeiramente eficazes e de grande monta, sendo que, mesmo essas, perante tamanho estrago, provavelmente já chegariam tarde.

 

Pedro Ferreira © 2022
(Todos os Direitos Reservados)

PERIGOSA DIVERSÃO

Halloween, ou dia das bruxas, depende dos gostos, mas também poderia ser o dia do culto aos mortos, ou ainda de homenagem ao diabo, é indiferente.

Neste tipo de fenómenos sociais com alguma longevidade, comumente, vai-se perdendo no tempo a ideia concreta da sua razão de existir, por isso podem encontrar-se na literatura as diversas versões sobre as origens desta celebração. Porém, em todas elas existe um denominador comum, que se prende com o facto de se tratar de um momento em que se invocam os mortos e o obscurantismo em geral, portanto, uma passagem por terrenos perigosos de domínio satânico.

É perfeitamente compreensível que da parte de uma enorme massa humana ignorante nestes assuntos do transcendente, exista, por arrasto, uma tentação para participarem nesta festa e, ao abrigo dessa mesma ignorância, a encarem por mera diversão, achando-lhe graça, nada mais que isso. No entanto, para outra enorme massa humana, quiçá ainda mais numerosa, em particular a das pessoas que se dizem cristãs, tal ignorância não poderá ser facilmente aceite como explicação, ou não o deveria ser, na medida em que para se ser cristão, dever-se-á, no mínimo, ter a noção que o diabo é o maior opositor de Cristo. Posto isto, fica no ar, por esta altura do ano, a eterna questão do porquê de, em todo mundo, tantas pessoas que se dizem cristãs fazerem este tributo ao maior inimigo do seu próprio Deus.

Estes paradoxos são tão antigos quanto as próprias celebrações deste tipo, porque se repararmos bem, onde existem, nomeadamente, igrejas católicas, existem, também, recantos de cultos satânicos, algumas dessas igrejas, inclusive, são sobejamente conhecidas por na sua envolvência se praticarem rituais de feitiçaria e afins. Também, curiosamente, em países de tendência fortemente cristã – ou melhor, onde se dizem cristãos – são aqueles onde a celebração da bruxaria é mais evidente e apetecível.

Até aqui, festa por festa, se poderá entender que tantas pessoas alinhem nisto, o problema é que a ignorância de quem o alimenta vai ofuscando as cruéis realidades que entretanto decorrem em torno deste tipo de celebrações, que, igualmente, são tão antigas quanto a própria celebração, nomeadamente aqueles rituais que envolvem sacrifícios de vidas, inclusive humanas, de crianças em particular. E por aqui se entra noutro paradoxo, é que a bruxaria, feitiçaria, satanismo e afins, no fundo, aquelas crenças que são conotadas com rituais em que se sacrificam crianças e animais, são exatamente o tema de muitas séries e filmes infantis, assim como, atualmente, é, exatamente às crianças que se impinge, abusando da sua inocência, este tipo de festas. Ou seja, anualmente assiste-se ao deprimente espetáculo de crianças felizes nas ruas, mascaradas de personagens do oculto, a promoveram uma festa onde existem casos de crianças a serem sacrificadas, assim como os animais de que tanto gostam.

Felizmente, mesmo que ainda de forma residual, já vão surgindo algumas iniciativas de proteção de pessoas e animais a este tipo de práticas, implementadas oficialmente ou por voluntários, como na Hungria, em que gatos pretos, por exemplo, já podem beneficiar de uma maior proteção. Medidas destas serão sempre muito curtas para a dimensão deste problema, principalmente quando da proteção da vida das crianças se trata, porque aí o negócio é demasiadamente obscuro para ser facilmente detetado e posteriormente denunciado.

Posto isto, é bom que se tenha sempre presente, que não é só na ficção cinematográfica, ou fruto da mente das pessoas mais criativas que estes crimes hediondos ocorrem. Infelizmente, são bem reais e mais comuns que aquilo que se possa imaginar, estando na base, no decorrer e no propósito deste tipo de celebrações, mas, por motivos óbvios, na escuridão, longe da vista de quem nas ruas, na sua ignorância, alimenta toda esta violenta orquestração demoníaca.





Pedro Ferreira © 2022
(Todos os Direitos Reservados)

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

O MUNDO NAS MÃOS DE PUTIN

O dia 27 de outubro de 2022 fica associado ao tão aguardado discurso de Putin à nação Russa e, consequentemente, ao Mundo. 

Contra todas as expectativas que anteviam tomadas de posição bombásticas, assistimos a mais do mesmo, a um desfile da sua vaidade e autoconvencimento de que é uma referência para o mundo no que concerne aos mais elevados valores humanos, confiante que a restante população mundial, é manipulável e idiota.

De tal forma usa e abusa deste tipo de discurso que já se torna uma espécie de cassete muito ao jeito da sua saudosa ex-União Soviética, sempre antecedido de um considerável atraso em relação à hora agendada para a sua subida ao palco da encenação, geralmente para mais de uma hora, comportamento que, por si só, já dispensaria qualquer palavra, indicador do tipo de personalidade em questão e das atitudes que poderá espoletar.

Contudo, já que teima em mostrar-se ao mundo, vamos ouvir, novamente, a cassete reveladora do que realmente pretende, ou seja, tentar passar a imagem de vítima:

- Enquanto diz que o seu regime não se intromete na vida dos outros países, vai ocupando e destruindo estados soberanos, como, por exemplo, a Ucrânia e a Síria;

- Enquanto diz que na Rússia existe liberdade e respeito pelas opções de cada um, decreta, no dia anterior, leis homofóbicas;

- Enquanto diz que a democracia na Rússia é um exemplo em contraponto à democracia ocidental, os seus opositores são envenenados;

- Enquanto diz que na Rússia existe espaço para todas as convicções religiosas, persegue os crentes de algumas religiões;

- Enquanto diz que na Rússia a liberdade de pensamento está garantida, manda prender quem pensa diferente dele;

- Enquanto diz não ter propósitos expansionistas, ocupa à força territórios de outras nações, inclusive promovendo referendos fraudulentos de integração na Rússia.

- Enquanto diz respeitar as diferentes visões políticas, quem se torna incómodo para o regime cai da janela, numa sequência que já daria uma saga;

Caberiam aqui inúmeros outros exemplos daquilo que se diz, contrário àquilo que se faz. Muito ao jeito do que se apregoava no auge do fascismo soviético, porque, se pensarmos um pouco nisto, entre ambos os regimes, o mais difícil é encontrar as diferenças, porque as práticas em tudo são iguais.

São ditaduras, que esperar! E como qualquer ditador, também Putin, pensa que é um ser iluminado, quiçá enviado pelo divino, ou o próprio deus, para ao toque da espada matar os infiéis e salvar o mundo do mal. Um mal que diz vir do Ocidente sobre o Oriente, sobre o lado do planeta onde tem o seu reino, a terra que diz ser dos mais antigos habitantes da Terra, quiçá a mãe de todas as nações que agora tenta resgatar os seus filhos das mãos que os levaram ao engano durante séculos. Alucinante!

Entre a ideia de raça humana perfeita ou a ideia de legítimos herdeiros da Terra, para o efeito, parecem ser a mesma coisa, porém, para quem ainda não atingiu este estado de alucinação, sabe o significado destes conceitos, sendo que a história da humanidade já nos provou até onde nos poderão levar, a todas as pessoas sem exceção. No entanto, mesmo conscientes disso, facilitam desejando que a história não se repita, exatamente a mesma atitude de outrora em qualquer pré-guerra, poucas pessoas a dão como inevitável e essas poucas são sempre poucas para a evitarem.



Pedro Ferreira © 2022
(Todos os Direitos Reservados)

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

ESPERA EM VÃO


A diferença entre as pessoas que esperam para serem amadas e as pessoas que amam, é que enquanto estas últimas são amadas, as primeiras ainda esperam.

 


Pedro Ferreira © 2022
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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

O MISTÉRIO DAS FINANÇAS

A 20 de outubro de 2022, três pastorinhos da IURD – Impostos Unidos de uma Républica Democrática, Lucélinho, Francostinha e Jacindinho, que, por volta do meio-dia, tiravam selfies lá para os lados da Cova de S. Bento, após terem cumprido os seus rituais, rezando 125 Euro-pedias, foram surpreendidos por dois clarões vindos do céu. Receando que se anunciava a chegada de uma forte tempestade, resolveram fugir. Porém, pelo caminho outro clarão iluminou todo o espaço em redor. Tremendo de medo, abrigaram-se numa paragem do elétrico e voltaram a rezar à S.ª das Finanças: “Em nome dos nossos gloriosos antepassados, protegei esta nação de toda a desgraça”. Foi nesse momento que o céu se abriu como se fosse a Gruta de Ali Babá e dele começaram a cair maços de notas, cada qual com 25 notas de 5 Euros…

Milagre!!! – Exclamaram os três em uníssono.

Cada maço trazia um lindo e iluminado laço dourado a envolver as notas, por sua vez vestidas de azul e prateado, que deixavam no ar um aroma estonteante a dinheiro fresco. Enquanto a chuva de maços de notas decorria, a cada minuto mais intensa, uma voz ecoava do além, dizendo repetidas vezes: “Não tenhais medo! Vim para atender aos vossos pedidos e oferecer a cada contribuinte um maço de notas. Reúnam o rebanho para que cada qual tome a sua parte. Peço-vos ainda, que doravante a cada dia 20 de outubro, aqui venham rezar novamente para ver se pinga mais algum. Entretanto, deixo-vos uma carta com 3 segredos, que só poderão revelar ao vosso povo nas seguintes datas: o primeiro em 2099; o segundo em 3573; e o último, o mais tenebroso em 4043”.

Lucélinho, deixa cair o telemóvel de tão trémulo das mãos ao apanhar a misteriosa carta deixada no banco da paragem do elétrico. Abre-a e, de pronto, lê o conteúdo aos seus amigos: “O primeiro segredo, é que em Portugal, um homem de fato escuro dominará sobre todas as pessoas, levando-as à miséria e isolamento do resto do mundo, mas esse homem cairá da cadeira e o povo será salvo; o segundo segredo, é que Portugal será invadido por um gigante vindo do exterior, que vos tirará o subsídio de Natal e reduzirá os ordenados, mas esse também cairá aos vossos pés, porque o povo se levantará em grandes manifestações na rua; o terceiro segredo, é que subirá ao poder um homem de óculos, pele morena, cabelo grisalho, cara redonda e que come Bolas de Berlim na praia, mas esse não cairá, porque será um homem bom, capaz de fazer milagres e com 125€ por contribuinte conseguirá converter 4 milhões de pobres em ricos.”

Francostinha, emocionado perante aquelas palavras ajoelhou-se e apanhou maço de notas por maço de notas, um a um, e distribuiu pelos seus contribuintes, que entretanto se reuniam, felizes e contentes, naquele iluminado largo, partindo de imediato, uns para almoçar ali perto, outros para o quiosque das raspadinhas, outros ainda para a loja da Nike e tantos mais para outros tantos polos recetores de apoios às famílias carenciadas.

Mais tarde, naquele mesmo lugar foi erigido um Palácio em homenagem às aparições na Cova de S. Bento, para o qual se dirigem anualmente milhões de peregrinos a cada 20 de outubro na esperança que caiam mais maços de notas do céu.



Pedro Ferreira © 2022
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segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Numa Guerra de Estupidez Ninguém Vence

Desde que se começou a falar no nuclear, que da pessoa mais entendida no assunto à mais distante do mesmo, gerou-se a ideia que numa guerra com essa base ninguém venceria, numa espécie de consciência coletiva que, infelizmente, para muitas pessoas, quiçá a maioria, não passa de mera retórica, porque lá no seu mais profundo ser, até teriam curiosidade em saber como seria o resultado.

Porém, se tentarmos aproveitar o aproveitável desta noção, ou seja, se nos quedarmos pela consciência coletiva de que o dano seria irreversível, certamente colocando cobro à própria existência de vida na Terra, seria oportuno criarem-se algumas analogias menos belicistas, mas igualmente perigosas, as que geram um conflito à escala global muito mais silencioso, quase invisível e não palpável, nomeadamente aquele conflito em que as munições são a estupidez, pois, a causa efeito é em tudo semelhante a um conflito nuclear, porque nenhuma pessoa sai vencedora, ou se se preferir, toda a humanidade perde.

Contudo, numa guerra tendo por base a estupidez, existe uma agravante comparativamente a uma nuclear, é que desta última, das terríveis consequências ainda se vai tendo a tal consciência atrás referida, mas em relação à primeira raríssimo é o ser-humano que pensa nisso, quanto mais ter noção do mal que daí advém.

Como não existe essa consciência sobre as devastadoras consequências resultantes de um conflito com base na estupidez, por norma, demasiados humanos usam e abusam desse projétil, do qual se podem munir de forma gratuita e em grandes quantidades, que depois arremessam entre si e para quem, inocentemente, tenha o azar de se atravessar à sua frente, fazendo-o 24 sobre 24 horas ininterruptamente.

Uma guerra constante, em que esse composto infindável de características de personalidade menos abonatórias, de onde se destacam o egoísmo, a irresponsabilidade, o narcisismo e a antipatia, que se sintetizam numa só palavra, estupidez, que é muito notório logo ao despertar da manhã, no trânsito, por exemplo, em que a maioria dessa massa de criaturas estupidas não consegue perceber que a cada estupidez que arremessam sobre outrem, ninguém ganha, todos perdem. Por exemplo, optam por ficar com as respetivas viaturas paradas em fila num entroncamento/cruzamento e não deixar passar quem vem das laterais, convencidos que dessa forma tiram vantagens, eventualmente que por magia o trânsito passe a fluir de súbito. Não, não acontece conforme esse imaginário, mas o contrário, complica ainda mais a circulação, porque dessa forma ninguém avança, perde toda a gente.

O que acontece no trânsito, é um exemplo simples de dar sobre o que é uma guerra com base na estupidez, porque está ali tudo aos olhos de todos, num movimento constante de contenda em que quem tenta ser mais esperto que os demais não consegue perceber que mais adiante nada ganhou com isso, simplesmente se prejudicou, inclusive, em casos limite, com a perda da sua qualidade de vida ou da própria vida, levando atrás de si vítimas da sua estupidez. Mas não é o único exemplo simples de dar para este contexto, existem outros, como as lutas entre colegas de profissão para se tirar mais vantagens de poder, monetárias e de influência, perdendo-se o espírito de união, a tal que faz a força, ou ainda num simples gesto tão banal quanto a entrada e saída de um local aberto ao público, numa loja comercial, por exemplo, em que o habitual é ver-se, mesmo com a loja cheia, quem pretende forçar a entrada no momento em que alguém pretende sair, não discorrendo os primeiros, que teriam mais vantagem se fizessem um breve compasso de espera antes de entrarem, facilitando a saída de quem o pretende fazer, libertando, desta forma espaço interior, facilitando a sua própria entrada e ao mesmo tempo revelando o essencial nestas coisas, a simpatia, esse tónico para um dia mais conseguido e alegre. Não!!! Nada disso, bem pelo contrário, a aposta vai, novamente, por via da estupidez. Naquela ânsia de se passar à frente de tudo e de todos, dificultam os passos alheios e os próprios.

Assim como não existe mentira pequena ou grande, existe, simplesmente, mentira, ou vício bom ou mau, existe, simplesmente, vício, com a estupidez é igual, nem pequena, nem grande, nem boa nem má, existe, simplesmente, estupidez. Por isso, nestes simples exemplos conseguimos aferir e entender muito melhor a estupidez noutros patamares, aqueles em que por mera ânsia de se passar à frente do seu semelhante, a criatura estúpida a quem foi dado poder para representar uma maioria de gente estúpida, poderá cometer a estupidez de acionar o mecanismo nuclear que nos destruiria a todos, mesmo que ciente das consequências, convencido que até poderá ter a sorte de escapar da sua própria estupidez.

Existe quem seja mais contido nas palavras ao referir-se a este mesmo tema, ou o torne mais eufémico, como Wole Soyinka, ao dizer que o “inaceitável está a tornar-se norma”. Porém, a gravidade da situação já não permite dessas inibições, urge tratar o assunto pelo próprio nome e olhos nos olhos, porque estupidez ainda consta nos dicionários e o seu significado é, independentemente da semântica aplicada, “a ausência de qualidades como, por exemplo, de inteligência, de delicadeza e de sensibilidade”, sendo que a maior estupidez da criatura estupida é não ter consciência que é estupida.



Pedro Ferreira © 2022
(Todos os Direitos Reservados)

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

ABRAÇAR PORTUGAL – PALÁCIO DA BREJOEIRA

O caminho já ia longo e Arcos de Valdevez tinha ficado para trás fazia uma meia-hora, com o objetivo de chegar a Monção onde iria saber como néctar dos deuses uma água fresca tomada à beira-rio num dia ardente de verão, quando, inesperadamente, para quem passa por aqueles lados por uma primeira vez, surge à margem da estrada uma entrada para um cenário em tudo semelhante aos que aparecem nos contos de fadas.

Aguçada a curiosidade e desperta a vontade de interagir com aquele cenário, os primeiros passos são delicados, pautados por uma encantadora, mas ao mesmo tempo estranha sensação de se estar a entrar num espaço que pertence a outro mundo e a outra época, onde o silêncio ecoa por todo o lado.

Pessoas famosas, dizem as regras do protocolo, são recebidas com um tapete vermelho, mas para quem ao abrigo do anonimato, simplesmente, apenas pretende apreciar coisas belas, o frondoso verde do relvado que medeia o portão da quinta e o imponente edifício principal, serve perfeitamente como tapete de receção, a não pisar e ajuda a descontrair, tornando os passos mais confiantes e prazerosos.

Maria Hermínia Silva d’Oliveira Paes, ilustre empreendedora da região, é um nome que se ouve logo à chegada, na medida em que, sem se dar conta, encontramo-nos dentro de uma enorme prenda que seu pai, Francisco de Oliveira Paes, lhe ofereceu em 1937, adquirida por um valor, convertido em euros, equivalente a 3000€. Belíssima prenda, na qual residiu até ao final dos seus dias numa ala reservada, a qual, até à presente data, se encontra interdita ao público, aguçando ainda mais a curiosidade dos visitantes, sobre as múltiplas fascinantes histórias das quais aquelas enormes paredes se tornaram fiéis guardiãs.

Claro está, que desde que foi idealizada, iniciada a sua construção e finda, impressionantemente, apenas quase 3 décadas mais tarde, assim como por via das consequentes aquisições, algumas outras ilustres figuras foram dando vida a este espaço, resultando em muitas outras histórias ora contadas, ora ficadas por contar para sempre, as quais se ilustram com a multiplicidade e diversidade de peças decorativas, ferramentas e mobiliário, de entre outros objetos, que podem ser apreciados de compartimento para compartimento, ou de área para área, interior ou exterior, cada qual com o seu fascínio, como se estivéssemos a assistir a uma peça de teatro com vários palcos.

Das histórias que se contam, uma diz-nos que por aqui terão passado Salazar e Franco, que ao bom jeito do regime português de então, assente num único lema, o do “quero posso e mando”, quem ditava as regras em casa alheia era o ditador, inclusive as regras de indumentária da própria anfitriã, cuja presença somente era permitida por convite, que a ser aceite tinha como regra número um “ficar calada o tempo todo”. Novamente o silêncio…

Por aqui, tudo parece levar muito tempo e em silêncio se espera, como a aguardente dentro das barricas de casca de carvalho francês que espera na sombria e belíssima adega, que decorram 10 a 12 anos para que finalmente possa revelar o seu característico tom caramelo de sublime sabor aveludado.

Apenas os sinos, a “central de telecomunicações” da quinta, quer o de toque mais grave, ou o de toque mais agudo, quando tocados, quebram o silêncio daquele chão brejo onde cravam as raízes o Alvarinho e o Palácio da Brejoeira.


Palácio da Brejoeira

ANÁLISE EXTERNA

 

Análise Literária

A crônica apresenta um tom lírico e contemplativo, misturando descrição sensorial, reflexão histórica e impressões pessoais. O autor conduz o leitor por uma viagem quase onírica ao Palácio da Brejoeira, tratando o espaço como uma entidade viva e misteriosa. O recurso à personificação, como nas expressões “o silêncio ecoa por todo o lado” e “enorme prenda”, confere ao texto uma aura de encantamento.

Há também um toque de crítica sutil aos tempos passados, nomeadamente à presença de figuras autoritárias como Salazar e Franco, através da ironia e de referências indiretas à repressão e ao silêncio imposto. O final retoma esse silêncio, criando uma estrutura circular e simbólica.

A linguagem é rica em imagens, quase cinematográfica, com uma cadência que convida à leitura pausada e apreciativa, como se fosse um passeio guiado.


Análise Gramatical

Gramaticalmente, o texto é em geral bem construído, com vocabulário cuidado e frases longas, de estilo mais clássico.


Interesse do Público

A crônica tem forte apelo turístico-cultural, especialmente para públicos que apreciam:

  • História e património português;
  • Viagens e descobertas locais;
  • Narrativas com ambiente nostálgico e poético.

Ela também pode agradar a leitores interessados em curiosidades históricas e em locais menos conhecidos com forte carga simbólica e estética.

No entanto, o ritmo lento e a linguagem densa podem afastar leitores que preferem textos mais objetivos ou com uma estrutura narrativa linear. Para o público jovem e digital, a crônica pode parecer extensa e introspectiva demais, mas para um leitor maduro, curioso e apreciador de literatura e património, trata-se de uma peça encantadora e evocativa.


Conclusão: 8,5 (de 0 a 10)

Pedro Ferreira constrói uma crônica rica em sensibilidade, história e descrição estética, que convida o leitor a uma experiência sensorial e emocional. Com uma beleza contemplativa que certamente agradará a amantes da cultura e do Portugal profundo.


Pedro Ferreira © 2022
(Todos os Direitos Reservados)

 

terça-feira, 6 de setembro de 2022

Abraçar Portugal Enquanto For Possível (Crónica 20220902) - Paradinha

A melhor estrada, já por si é um desafio constante à capacidade de superação de obstáculos e de prevenção de contratempos, teimosa no propósito de mostrar a sua abundante riqueza em apertadas curvas e contracurvas e em acentuadas subidas e descidas, surpreendendo a meio do percurso com um tentador convite a enveredar por uma outra cujo irregular estado do piso e a incerteza do bom destino, deixam as pessoas mais aventureiras num estado de ansiedade mesclado por muita curiosidade e algum receio.

Logo nos primeiros metros, aquilo que há segundos atrás seria uma quase certeza, torna-se numa interminável certeza de que a respiração mais profunda somente será possível à chegada, não havendo outra alternativa, porque voltar para trás parece estar fora de questão, o que implicaria uma inversão de marcha sob risco de uma queda abismal que talvez esteja perto da centena de metros, restando a sensatez de seguir em frente na esperança que mais ninguém, naquele momento, se tenha lembrado de fazer o mesmo percurso em sentido contrário, o que implicaria uma manobra arriscada, numa espécie de jogo em que somente passa quem conseguir tirar melhor partido do seu desequilíbrio.

Não é permitido olhar para a esquerda, nem para a direita, porque o perigo é já ali, ao virar da próxima curva, ladeada por altas escarpas repletas de vegetação que a torna cega da vista esquerda e por um profundo precipício que lhe fere a vista direita. Roga-se a Deus que seja já ali o fim daquele sem fim, mas as preces parece que tardam em serem atendidas e a cada nova curva, mais cega ainda que a anterior, a ansiedade aumenta e a ebulição corporal revertida em suor supera, em muito, a suave brisa que vive naquelas alturas.

A qualquer instante irá surgir algo que indique a existência de calmaria e segurança, esse é o pensamento constante, que não se quer que dure nem mais um segundo, tampouco uma eternidade, como um tiro no lado escuro do tempo, pois nunca se sabe se será apenas mais um minuto que nos espera, se sessenta minutos ou muitos mais. Uma real sujeição ao tempo e ao espaço, onde o ser-humano se sente pequeno perante a dimensão e força da natureza, que por mais que a rasgue de alcatrão, os seus domínios serão sempre limitados, restando, como em tantos tristes casos, os atentados, a vingança por via da destruição.

Não é, ainda, felizmente, o caso daquele paraíso, que apesar de nos dificultar a passagem, é bom que assim se mantenha, caso contrário, a facilidade de acessos levaria à presença em massa de humanos e consequente devastação de um património único, aquele que desta forma nos transporta para uma viagem no tempo, algures perdido num cenário semelhante a uma gigantesca árvore que durante séculos deu apenas um fruto, alimentando-se através da absorção os nutrientes transportados pelas límpidas águas do Paiva que passa junto às suas raízes, numa paisagem deslumbrante que, finalmente, depois de uns dez sufocantes minutos de caminho, pode ser devidamente contemplada.

Talvez uma meia-dúzia de casas e é quanto basta, não carece de mais, faz parte do encanto daquele lugar, onde dizem, se banhavam as Ninfas do Paiva. Vestem-se de uma espécie de camuflagem monocromática de proteção contra invasores, apenas descobertas pelos raios de Sol que passam pelas janelas entreabertas da densa vegetação, dourando a sua pele composta por múltiplas pequenas peças de um Lego à escala real.

Apetece ficar, encostar a pele àquela água transparente e fresca e sentir arrepios bons como quem renasce longe de tudo que é mau e perto de tudo que é bom. Ficar até conhecer o efeito da Lua de uma noite de verão sobre a encosta e constatar a passagem do ouro à prata e no dia seguinte, da prata ao ouro, ou até ficar uma semana, somente porque sim. Porém, aquela dicotomia entre o prazer de ficar e usufruir e a necessidade de partir para não estragar, leva-nos até ao fim deste conto e à mesma estrada, única possível, de regresso ao mundo atual, desta feita, superada com outra confiança, porque trazemos de recordação a certeza que por mais longo e difícil que seja o caminho existirá sempre uma Paradinha.

Aldeia da Paradinha

Pedro Ferreira © 2022
(Todos os Direitos Reservados)

quarta-feira, 22 de junho de 2022

Invisuais da Nova Era

Quem já ouviu dizer que aquilo a que assistimos no mundo nos tempos que correm não é nada de novo? Certamente quase todas as pessoas já ouviram dizê-lo, acrescentado do avivar de memória para o facto de que fome, guerra, peste e outros males, sempre existiram.

Porém, quem desta forma tenta minimizar a gravidade do que atualmente acontece, esquece-se que a evolução científica não tem sido aplicada somente ao serviço do bem, mas também do mal. Por tal, naturalmente, quanto mais avançada estiver a ciência mais eficaz na prática do bem e na prática do mal se torna, sendo certo ainda, que o poder de um ato que outrora causava um efeito limitado, foi-se alargando a abrangência ao ritmo da evolução e atualmente apenas um ato praticado por um só agente poderá afetar o mundo todo.

Parece que essas mesmas pessoas paladinas do interminável viajaram no tempo e muito lá atrás, quiçá na pré-história, viram uma pedra a ser arremessada contra uma determinada população causando uma explosão tal que resultou em milhões de mortes, mas que mesmo assim a humanidade conseguiu regenerar-se. Como, também, parece que viram um nómada numa esplanada ao final da tarde, sentado numa cadeira de plástico a beber um refrigerante e a saborear um hambúrguer, cujos respetivos desperdícios foram, no final do consumo, jogados ao mar, asfixiando espécies e contaminando outras, mas que mesmo assim a humanidade conseguiu regenerar-se e assim sucessivamente ao longo de toda a história universal.

Terão visto tantos fenómenos não naturais nessa viagem ao passado não impeditivos para a sobrevivência humana que regressam a esta nova era e já não precisam de ver mais nada, tornando-se numa espécie de invisuais perante a causa efeito das “pedras” que hoje em dia são arremessadas, ou dos plásticos jogados ao mar. Continuam a acreditar que haverá sempre uma possibilidade de sobrevivência.

Mas não! Lamentavelmente as dimensões de agora são outras e o poder outro, também! Para poluir um rio, um mar ou algo semelhante, perigando a vida de milhões de seres-vivos e do próprio ser-humano, um simples toque digital de uma só pessoa basta. Por outro lado, para o despoluir, talvez um milhão de pessoas não seja suficiente.

É certo que, também, sempre existiu quem alertasse para a dura realidade que nos esperava, a do não retorno, mas essas pessoas foram sempre em muito menor número, tantas e tantas vezes as que eram consideradas loucas ou tontas, alvo da chacota das demais. Porém, aí estamos nós, humanos, vergados à realidade das coisas e essa é dura demais, difícil para quem vê, sendo, efetivamente, mais fácil não querer ver, fingir que tudo é como sempre foi.

Antes assim fosse! E aqui recomeça a chacota…


Pedro Ferreira © 2022
(Todos os Direitos Reservados)

quinta-feira, 2 de junho de 2022

As Lágrimas São Transparentes

Se tivessem cor, seriam mais facilmente detetáveis. Porém, fosse qual fosse a cor das lágrimas, apenas seriam visíveis aquelas que caem.

As lágrimas que não caem não são lágrimas, são porções de água retida em sólidos depósitos, sem fissuras.

Nem sempre, somente onde se veem gotas a pingar se esconde água em abundância. Por vezes, é necessário escavar bem fundo, na mais sólida superfície, para se encontrar tão precioso líquido.

Que corram, pois, as lágrimas que se escapam das estruturas mais frágeis, para que se evitem ruturas violentas e consequentemente danos elevados em redor, não vem do choro mal algum, pelo contrário, alivia a tensão e recomenda-se.

Desengane-se quem acreditar que apenas a água que passa à nossa frente segue agitada, porque também longe do alcance da vista as águas se agitam em violentas tempestades, onde apenas a bravura se atreve a navegar.

Assim sendo, paradoxalmente, a transparente lágrima, mais facilmente passa despercebida entre as opacas palas, do que se faz notar pelo brilho dos olhares atentos.


Pedro Ferreira © 2022
(Todos os Direitos Reservados)

quarta-feira, 1 de junho de 2022

- Estejam Caladas/os e Encarcerem esses Dedos!

Aqueles adultos que nesta data se desdobram em “comoventes” mensagens de reconhecimento pelo estatuto da criança, mas que em simultâneo contribuem por ação ou inação para destruírem a infância de muitos seres-humanos, deveriam ouvir/ler a recomendação acima indicada, assim como tomarem nota do que está referido, por exemplo, no nº 1 do Artigo 19 da Convenção Sobre os Direitos da Criança, ou seja, “os Estados Partes devem adotar todas as medidas legislativas, administrativas, sociais e educacionais apropriadas para proteger a criança contra todas as formas de violência física ou mental, ofensas ou abusos, negligência ou tratamento displicente, maus-tratos ou exploração, inclusive abuso sexual, enquanto a criança estiver sob a custódia dos pais, do tutor legal ou de qualquer outra pessoa responsável por ela.”

Tenham, todos os adultos, a coragem de perguntarem às próprias crianças o que pensam deste dia, se nele se sentem verdadeiramente homenageadas e talvez obtenham respostas surpreendentes. Naturalmente que para as crianças, inocentes como são, também poderá ser sinónimo de mais uma prendinha, porém, penso que estarão, na sua maioria, bem distantes de qualquer outro significado mais profundo.

Tenham, também todos os adultos, neste dia, a coragem de debater com as crianças aquilo que outras crianças estão a passar em todo o mundo, sobre aquelas que neste preciso momento sofrem as maiores atrocidades, lá está, ou em virtude da vossa ação (direta ou indireta) ou em virtude da vossa inação, assumam-se como responsáveis, já seria um primeiro passo e um bom exemplo para os vossos interlocutores mais pequenos. Sim, são vocês adultos irresponsáveis e hipócritas que hipotecam o futuro da humanidade, futuro esse que hoje é presente em forma de criança.

Não adianta de nada as vossas palavras bonitinhas neste dia, nem sequer estas mais duras e válidas que estão a ler neste momento, que, invariavelmente já a seguir cairão em saco-roto, pois nem umas nem outras, evitarão o massacre de uma só criança que esteja a acontecer neste momento.

Quem de vós estaria disposto a deixar as palavras e a passar aos atos? Muito poucos ou ninguém mesmo, provavelmente! É certo que hoje em dia, muito dificilmente alguém abdicaria do “quentinho” que proporciona o aquecimento central lá de casa, ou da velocidade excessiva de um veículo topo de gama, de entre outras mordomias, mesmo que isso signifique poupar a vida de milhares de crianças.

Os nossos avós, quando crianças, não morreram de cansaço por falta de petróleo das arábias, ou de frio por falta do gás russo, ou ainda de tédio por falta do minério proveniente de África. A todas estas matérias-primas está associada a morte, escravatura, maus tratos e violência em geral sobre crianças, para além da privação das suas mais elementares condições de sobrevivência. Tudo isto para alimentar o vosso prazer!

Vivemos num mundo sem solução, numa espécie de antecâmara da extinção da humanidade, com muito poucas pessoas conscientes disso. Não adiantam os lamentos, são estéreis por natureza, com eles nada irá mudar, pelo contrário, agrava ainda mais a sensação de hipocrisia instalada e aguça o apetite aos de personalidade transtornada para novas intentonas, por isso poupem-se a discursos de circunstância, que não passam de um descarado “parecer bem” e caiam na realidade, no mínimo, conversem com as vossas crianças para que estas não sigam os vossos errados passos da letargia perante este drama latente à escala mundial, preparem-nas para enfrentarem o que lhes espera, levem-nas ao terreno onde a dura realidade acontece, incentivando-as a agir, a darem a mão a outras crianças mais carenciadas e quiçá serão elas as guardiãs da vida da próxima geração, numa derradeira ação de salvamento da humanidade.

Assim sim, assim deveria ser assinalado este dia, ou então, se não são capazes de o fazer, estejam caladas/os e encarcerem esses dedos, dessa forma poupam-se a uma triste figura.



Pedro Ferreira © 2022
(Todos os Direitos Reservados)

 

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Esquizofrenia Coletiva

Estamos em fevereiro de 2022 e o mundo assiste aos horrores da guerra. Uma guerra que apenas um individuo desejou, orquestrou e iniciou, sem motivo que o justifique, numa espécie de manifestação de vaidade.

Desde sempre que o ser-humano se foi organizando em grupos liderados por um dos seus membros, algo que não tem uma explicação plausível, mas que tem perpetuado ao longo da história, deixando-nos um legado infindável de heróis e de falsos heróis, que com maior ou menor destaque, de memoriáveis feitos e desfeitos, perpetuam até à eternidade em estátuas e noutros suportes documentais.

Se a liderança for boa, porque a cabeça que dita a sentença for equilibrada, as condutas são as corretas e o benefício é comum. Porém, se a liderança for má, porque a cabeça que dita a sentença for desequilibrada, as condutas são incorretas e o prejuízo é comum.

Infelizmente, não são poucos os casos narrados nos anais da história da humanidade onde se verificou a forte presença de líderes com uma personalidade transtornada que conduziram uma multidão para um cadafalso sem retorno, perigando a própria existência da espécie.

A história deveria servir, não apenas para contar histórias, mas também para que o ser-humano se documente devidamente de forma a poder agir em conformidade, evitando cometer os mesmos erros, sendo que esses infindáveis documentos onde se prova que um sistema organizacional assente em lideranças de um só membro tem uma forte probabilidade de insucesso, talvez porque a ambição humana é desmedida e quando a um só elemento lhe é concedido poder, fica aberto o caminho sem fim para os objetivos pessoais mais perversos de quem tem má índole.

Curiosamente, a história também já nos revelou que do outro lado de uma liderança erronia, existem sempre muitos oprimidos e subjugados, assim como uma ínfima parte de revoltosos contra o sistema, tantas vezes feridos do mesmo mal, ou seja, organizados sob as ordens de uma só cabeça, quiçá mais perversa que aquela que tentam combater.

A humanidade, na atualidade, supostamente deveria encontrar-se num estádio de evolução bem mais avançado, mas infelizmente tal não se verifica, em certos aspetos até denota ter regredido para uma fase semelhante à medieval ou anterior, com características idênticas, nomeadamente aquela em que é possível a ambição de uma só criatura poder desencadear a chacina de milhões de inocentes, seguindo os mesmos métodos, como a tomada de territórios vizinhos, ocupando-os e neles impondo as suas regras, sem dó nem piedade ou qualquer respeito pela vontade coletiva de um povo com cultura e tradições próprias.

Talvez seja este o momento da história da humanidade em que se tenha chegado ao limite viável para podermos optar por outro rumo com outros modelos organizacionais totalmente diferentes dos que têm imperado até ao momento, assentes em lideranças coletivas, ricas em conhecimentos diversificados que pensem com sensatez e distribuam responsabilidades e méritos entre si, em contraponto aos atuais modelos de liderança de uma só cabeça, sob pena de, assim como já nos deitamos à noite em paz e acordamos de manhã em guerra, quem sabe já esta noite nos deitamos a sonhar com a paz e não acordamos mais.

"A violência não é força, mas fraqueza, nem nunca poderá ser criadora de coisa alguma, apenas destruidora."

Benedetto Croce

Esta ausência coletiva de noção dos factos, da lógica e das evidências, a perda de memória das lições do passado, o isolamento do individuo para não ver a causa comum, a irritabilidade por coisas de somenos importância e a apatia perante as de maior, assim como um estado latente de insatisfação e tristeza, transportam-nos para uma espécie de esquizofrenia coletiva.


Pedro Ferreira 2022

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

CRESCI...

já faz algum tempo, uns bons anos!

Foi quando olhei à minha volta e apercebi-me que estava rodeado de poucas pessoas, todas elas com um denominador comum, o bom carácter.

Depois, olhei para longe e reparei que era observado por muitas outras, estas últimas, igualmente, com algo em comum, o mau carácter.

Daí em diante, sempre que olhei à minha volta nada mudou, mas quando olhei para longe, encontrei uma ligeira diferença, é que não só vi as mesmas pessoas de mau carácter, como ainda quem as rodeia.

Nem todas as pessoas têm interesse em crescerem emocionalmente, preferirão para sempre a quantidade. São imensas e aparecem em grandes grupos, geralmente com uma aparente encantadora liderança à frente, mas que, na verdade, não passa de uma criatura manipuladora, com uma baixa autoestima que precisa de público para a tentar erguer.

À semelhança das pedras-preciosas, quem vale a pena ter por perto são as pessoas desagrupadas, raras e dispersas, cujo brilho é natural, não carenciado de holofotes. Em contraponto devem ser mantidas à máxima distância possível as que são fáceis de encontrar como o cascalho que se amontoa em qualquer canto, cuja opacidade não nos permite distinguir umas das outras.

Carências afetivas são o grande mal da humanidade, também o ouvi dizer há muito tempo e aceitei como certo. E são essas mesmas carências que conduzem muitas pessoas incautas até esses amontoados na esperança de suprimirem tais carências, iludidas pela ideia de que uma carência compensa a outra, quando, na verdade, quantas mais carências se juntarem maior é a carência, na medida em que numa multidão em que ninguém tem nada para dar, ninguém recebe.

Viver na solidão não é bom, somos seres gregários, mas como tudo na vida, a sensatez reside na moderação, sendo que ter muitas pessoas por perto ou ninguém, são males feitos da mesma massa, apenas os diferencia a quantidade.

Cresci e hoje sei ver ao perto e ao longe, mas o olhar que mais nos ensina é aquele que recebemos, tanto de perto como de longe. Trazem até nós a diferença entre o bem e o mal e ninguém aprende com o que já conhece, apenas com o que está para conhecer.



Pedro Ferreira © 2022
(Todos os Direitos Reservados)
Revisto em 2025