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segunda-feira, 2 de outubro de 2023

CANSAÇO D’ALMA

Cansei-me, por um momento só!

O corpo nem sempre reage quando a alma pede, quiçá acumulados indeléveis cansaços.

Não sei mais o que dizer, não sei mais o que fazer, o corpo não reage porque a alma é quem age.

Estou no limiar do firmar, sinto o poder de decidir sobre o todo, mesmo que seja uma só parte, mas estou cansado…, cansado de ser apenas parte!

Teremos voltado ao acaso, onde tudo nos espera e nada nos acontece… Vou esperar entre o tempo e o espaço, porque nada me resta senão ser, novamente, apenas uma parte.


Pedro Ferreira © 2017
(Todos os Direitos Reservados)

terça-feira, 16 de maio de 2023

QUANDO A ALMA SE MANIFESTA

Quando a alma se manifesta:

As questões tornam-se um despropósito;
As dúvidas dão lugar a inequívocas certezas;
A presença é dispensável;
O tempo um segundo apenas;

Não me questionem, portanto, porque não tenho dúvidas que o espaço é mero figurante e o tempo nosso servo.

Mostrar-vos-ei a outra parte da minha parte, aquela que parte.

Não sei qual a dimensão do amor, pois ele estará em toda a parte.

Fico-me com a parte que fica, nada mais espero da vida senão saber que estarei sempre amando em qualquer parte.


Pedro Ferreira © 2017
(Todos os Direitos Reservados)

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Intemporal

Sentimos que cada um dos dois é fiel depositário do outro: que o nosso abraço é do diâmetro da Terra; que está sempre tudo certo, nada reclamamos um do outro; que nos ouvimos como ninguém nos consegue ouvir; que somos o ponto de partida e o ponto de chegada para cada qual; que o colo é possível e até tem graça; que nunca cairemos, mesmo que as nossas mãos não se toquem; que nas vitórias houve um foco de luz sobre nós e nas derrotas nem as grades nos separaram; que com admiração nos entreolhamos, e no silêncio tanto dizemos; que nos incomodamos, mas que tudo superamos; que o nosso futuro é uma ambição por si só; que sentimos intensamente tudo aquilo que não vivemos; que já podemos dizer que construímos algo, um passado; que confiamos numa magia superior a nós; que o respeito nos deixa levar a parte de cada qual; que é de longe que o brilho do outro nos alcança; que contamos a mesma história; que aceitamos o preço da liberdade duramente conquistada; que motivados sempre estaremos, mesmo que o mar esteja encrespado; que muitas lágrimas já foram partilhadas; que o nosso sabor é o somatório de todo o nosso sentir; que os anos passaram e nada mudou; que nunca houve necessidade de falar em perdão e que bem tontos fomos; que são coisas sentidas com alma; que alinhamos caminhos celestes em que a primeira e a última estrela é qualquer um de nós dois; que já fomos para além da Lua, entramos num imaginário pelas nossas mãos desenhado.

Sentimos que tudo é simples e belo, e que assim nos temos completado, no único interesse de ver qual dos dois sorri mais largo, quando no céu nos erguemos.

Não fazemos contas, porque a felicidade são momentos de intensidade única multiplicados no coração de cada um de nós, que se divide na parte de cada parte.

Se aprendemos a amar desalmadamente, então já vivemos esse amor.

Se queremos?! Sim.

Se merecemos?! Sem sombra de dúvida.

Se vamos encontrar tamanho milagre?!

Só a Deus pertence esse segredo intemporal…



Pedro Ferreira © 2017 (Escrito na Alma)

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

INTERROGAS-TE PORQUE ME ACALMO!

Peço-te que me imagines uma embarcação chegada a bom-porto depois de uma travessia entre continentes e gentes, navegando em mar alto, tantas e tantas vezes enfrentando tempestades, outras tantas à deriva, onde os remos já partidos não são mais do que recordações de braços que me tentaram submergir e observa-a no seu balanço como quem se perde em águas calmas e terás a mais cabal resposta para a questão que me colocas.

Existe só um fundo de verdade para cada âncora.

Não sei se as gaivotas chegaram para em mim descansarem, ou se para me mostrarem que depois das tormentas, existe a paz que me faz voar.


Pedro Ferreira 2018
(Todos os Direitos Reservados)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Aqui é tudo tão natural



Aqui é tudo tão natural, tudo tão livre: onde as portas não são feitas de madeira, mas sim das próprias árvores; onde nas janelas não existe vidro, somente luz; onde as paredes deram lugar ao vento; onde o chão é terra fértil sem quadrados estéreis; e onde os tetos são o infinito onde a alma se projeta.

Nascemos assim, desprovidos de tudo, ao sabor dos elementos, momento dramático em que num primeiro minuto a metamorfose se dá para uma dependência de tudo, ao sabor de todos.

Regressar às origens é também viajar no tempo, ao tal primeiro minuto de vida em que tudo acontece, afinal de contas o único em que pudemos ser verdadeiramente nós próprios.

Gosto de respostas simples para questões complexas; gosto deste meio onde tudo é tão claro.

Pedro Ferreira © 2015 (Todos os Direitos Reservados, Registo de Obra n.º 2629/2017)

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Rasgos na Noite


Rasgos de um céu negro de noite, separando o que era do que não será, envolvem o momento em que se fere de um beijo só todo o corpo rendido, cansado, adormecido pelo tempo não vivido, apenas sofrido.

Vai dessa fenda ainda cair muita água vertida pelos olhos que não conseguem ver para além desse momento, aquele que marca o início do não retorno.

Caminhos sonhados, que este negro céu apaga e que o dia seguinte não será capaz de encontrar luz forte o suficiente para uma só pegada revelar.

Uma poeira que no dia anterior se levantou pintando de negro este céu, que entretanto aqui rasguei para essas mesmas lágrimas não ficarem contidas, uma chuva de arrependimentos que humedecerão um novo caminho que se espera fértil, onde nascerão plantas no lugar desse pó. 

Pedro Ferreira © 2016
(Todos os Direitos Reservados, Registo de Obra n.º 2629/2017)