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terça-feira, 14 de março de 2023

AVENTURA

A vida de quem não se aventura equipara-se a uma embarcação que nunca saiu do estaleiro, perde o sentido da sua existência, fica sem encanto, acaba por secar. Abençoadas pessoas aventureiras cuja memória se perpétua no tempo numa história de encantar, acabe ela como acabar, em porto seguro ou, no fundo do mar.


Pedro Ferreira © 2016
(Todos os Direitos Reservados)

terça-feira, 22 de novembro de 2022

ULTRAPASSAR A FASE DE PRODUZIR AFIRMAÇÕES SÓ PORQUE SIM

É significativo quando uma criança ultrapassa a fase de a tudo responder apenas com sim ou com não.

Provavelmente, o momento em que começa a denotar os primeiros sinais de maturidade, elaborando respostas mais conseguidas, indicador de uma criança que já passou a desenvolver um raciocínio próprio e a saber explicá-lo.

Porém, mesmo em idade adulta, é comum encontrar-se respostas tão redutoras quanto um "sim porque sim" ou um "não porque não", ou um "é porque é" e outras, curiosamente, da autoria de quem, por norma, se considera autoconfiante em relação às convicções que tem.

Por outro lado, quem sente a necessidade de argumentar com o facto de se lhe reservar o direito de não revelar o que pensa para justificar tais respostas tão redutoras, não pensa nada, apenas debita palavras só porque sim, na medida em que quem realmente pensa ou o diz, ou não anuncia o que não diz.

Pensar um pouco antes de falar é fundamental, antes de escrever ainda mais, porque o dito não volta atrás e dar o dito por não dito é a tal “emenda pior que o soneto”, sendo que o mais sensato, que seria reconhecer que se disse um disparate, isso, geralmente está completamente for de questão para pessoas tão autoconfiantes.

Amarrar a mente a pensamentos formatados será sempre uma opção de cada individuo, porém, o tempo passa e a idade avança, sendo, portanto, muito frequente em idades ditas como adultas e até já significativamente avançadas, encontrar quem ainda se quede pelo “sim por que sim” ou pelo “não porque não” e afins, o que será o mesmo que dizer, por outras palavras, que as coisas são da forma que essas pessoas decidiram, mas não como efetivamente o são.

Uma espécie de teimosia com o exclusivo propósito de negar o conhecimento, ou se se preferir, uma clara opção pela ignorância.




Pedro Ferreira © 2016
(Todos os Direitos Reservados)

sábado, 1 de fevereiro de 2020

O Auto da Rede

A evolução da humanidade não passa de um mito. Afinal de contas, basta abrir qualquer rede-social e constatar isso mesmo. Tecnologicamente existem grandes progressos, sem dúvida, mas algo ficou para trás e que dá sempre muito jeito, é que para o bom usufruto das coisas, entretanto inventadas e postas à disposição de todos à escala mundial, seria bom também contar com outro tipo de evolução, a mental, pois sem esta última dá asneira na certa e de nada serve o progresso a outros níveis.

As coisas são boas ou más mediante o uso que lhes damos, como uma faca, que tanto serve para descascar uma maça como para matar uma pessoa.

As redes-sociais não fogem à regra, são ótimas à partida, mas podem ser desastrosas quando mal-usadas, e isso é cada vez mais notório, talvez em virtude da própria evolução das coisas, porque deixam de ser novidade e rapidamente se entra na fase do uso e abuso até à saturação e posteriormente à fase do desinteresse, culminando com o já previsível abandono, tudo isto até surgir algo novo e entusiasmante que volte a mexer com as massas.

A mente vai ficando descorada, e entre aquilo que constatamos a esse nível em tempos longínquos, por exemplo, muito bem representado nos Autos de Gil Vicente, e aquilo que hoje vemos acontecer no que se poderia muito bem apelidar de Auto da “Facefarsa” do Inferno, não se encontra grande diferença, ou seja, as mentes não evoluíram, e as personagens são perfeitamente enquadráveis, desde o Enforcado à Brísida Vaz, passando pelo Diabo e naturalmente o Anjo, entre os demais, como ainda repescando as personagens do Auto da Índia, a Ama, a Moça e o Marido.

Desperta especial curiosidade a alcoviteira, personagem que talvez represente na perfeição o que nas redes-sociais se passa, desde as adivinhações aos arranjinhos tão evidentes, mas sem descorar as demais personagens destas intrincadas e complexas ligações entre o mundo virtual e o real, como o Marido traído, o amante Castelhano e a Ama tudo e todos, claro está, em enredos que já não se destacam de tão banais se terem tornado.

Muitas pessoas tendem a encarnar este mesmo tipo de personagens porque as suas mentes ficaram perdidas em tempos idos, no das vãs deduções e julgamentos sumários que aconteciam a torto e a direito, ao ponto de ainda não terem aprendido que em qualquer Auto da Vida, existe sempre mais que uma versão e aos adultos já se pede, no mínimo, reflexão, atendimento e entendimento de tudo e de todos.

Também são muitas Leonor Vaz (mulheres ou homens) que nestes ambientes se fazem notar, são como a prata da casa, novamente espelho da não evolução mental, quiçá neste caso até de retrocesso, pois também estas redes-sociais são indevidamente aproveitadas por fofoqueiras intriguistas para sussurrarem ao ouvido do mural alheio.

Só se pode considerar uma mente evoluída toda aquela que não se dá a vãs deduções, tampouco juízos de valor, que ouve em toda a linha, é de mente aberta (não confundir com promiscuidade) e que não deixa de dizer o que pensa, pois, pensa, mas pensa para si e di-lo em sede própria e a quem de direito.

Pedro Ferreira 2016
(Todos os Direitos Reservados, Registo de Obra n.º 2629/2017)



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Talvez um Dia

Certo dia aprendi a ler para escrever;
Certo dia aprendi a escrever para poder;
Certo dia aprendi a poder para querer;
Certo dia aprendi a querer para sentir;
Certo dia aprendi a sentir para viver;
Certo dia aprendi a viver para ter;
Certo dia aprendi a ter para guardar;
Certo dia aprendi a guardar para ser;
Certo dia aprendi a ser para saber.

Neste dia aprendo a saber quem sou;
Neste dia aprendo a ser o que guardo;
Neste dia aprendo a guardar o que tenho;
Neste dia aprendo a ter o que vivo;
Neste dia aprendo a viver o que sinto;
Neste dia aprendo a sentir o que quero;
Neste dia aprendo a querer o que posso;
Neste dia aprendo a poder o que escrevo;
Neste dia aprendo a escrever o que leio.

Talvez um dia aprenda a ler o que escrevo;
Talvez um dia aprenda a escrever o que posso;
Talvez um dia aprenda a poder o que quero;
Talvez um dia aprenda a querer o que sinto;
Talvez um dia aprenda a sentir o que vivo;
Talvez um dia aprenda a viver o que tenho;
Talvez um dia aprenda a ter o que guardo;
Talvez um dia aprenda a guardar o que sou;
Talvez um dia aprenda a ser o que sei.



Pedro Ferreira © 2016
(Todos os Direitos Reservados)

O Ciclo do Suor


Corpo, leito de água salgada, sob o olhar da sua estrela maior,
evapora-se num abraço de luz e calor,
libertando o seu suor como as plantas sopram o céu e os animais gritam o seu vigor;

Corpo, nuvem negra de água doce que o vento forte arrasta,
beija com estrondo aquela outra que passa fria,
para se precipitar em gotas numa cama vazia;

Corpo, rio de água viva com margens revestidas a pele,
respira ansiedade serpenteando-se em direção ao mar,
inunda tudo que há de mais profundo ao passar.
 

Pedro Ferreira © 2016
(Todos os Direitos Reservados, Registo de Obra n.º 2629/2017)

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Este Tempo Não é Meu

Não é meu o tempo do sorriso sem rosto, do beijo sem lábios, do abraço sem peito, do afago sem mãos, do suor sem pele.

… num teto sem sonho.

Não é meu o tempo de estar sem ficar, de ser sem querer, de não ter e poder, de doer sem sentir, de magoar sem entender.

… num chão sem passos.

Não é meu o tempo de dar sem receber, de deixar sem trazer, de perguntar sem ouvir, de cuidar sem sarar, de perdoar sem esquecer.

… numa parede sem janela.

Não é meu o tempo do calor sem paixão, da promessa sem amor, de acarinhar sem tocar, de brincar sem graça, de morrer sem entender.

… numa casa sem porta.

O meu tempo é aquele que, entretanto correu lá longe, algures onde a água e a areia, tão diferentes, se unem numa só praia, a minha, aquela onde a felicidade é o somatório de dois lados que nunca se anulam, completam-se.

 

Pedro Ferreira © 2016
(Todos os Direitos Reservados, Registo de Obra n.º 2629/2017)