Mostrar mensagens com a etiqueta Quem é o Pedro.... Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Quem é o Pedro.... Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 11 de novembro de 2025

Quem é o Pedro, Afinal de Contas... - Parte 16

E de ciclo em ciclo se vai completando a vida.

Acreditava que o anterior, seria longo, pautado por menor agitação, numa espécie de chegada tardia à idade em que ao serão já se pode usufruir do conforto do sofá e do sabor de uma bebida. Porém, têm existido ciclos e ciclos, como se fossem portas que vou passando e deixando entreabertas atrás de mim, para dar lugar a novos corredores cujo comprimento não consigo antever e pelos quais caminho sem poder calcular em qual dos seguintes passos encontrarei a próxima porta. Este corredor, contra as expectativas iniciais, revelou-se de curta distância e aqui estou, mais cedo do que aquilo que imaginava, a passar mais uma dessas portas e a entrar num novo ciclo.

Neste hiato, descobri que a vida sempre decorre, mesmo que a tentemos travar, pois é ela que nos domina e não nós que a dominamos. Vida é sangue a correr nas veias. O sangue tem o seu ritmo, umas vezes mais apressado, outras mais vagaroso, mas é ele que nos conduz.

Nesse pulsar da vida, hoje em dia, neste novo ciclo, apercebo-me do seguinte:

Aquilo que, até então, decorria em excesso de velocidade, agora “sopra” como uma leve brisa, assim como, aquilo que decorria a passo, agora “rodopia” com inquietude, numa clara aproximação ao equilíbrio do tempo;

Aquilo que, até então, era dado como garantido, agora “salpica-se” com nuances de incerteza, assim como, aquilo que se revestia de uma dúvida constante, agora “pinta-se” de uma considerável camada de certeza, numa clara aproximação ao equilíbrio da consciência;

Aquilo que, até então, era tido como um ideal, agora “despe-se” de folhas caducas, assim como, aquilo que era tido como impensável, agora “veste-se” de folhas de esperança, numa clara aproximação ao equilíbrio da compreensão;

Aquilo que, até então, estava assimilado, agora “mergulha” na penumbra do desconhecimento, assim como, aquilo que era desconhecido, agora “descomprime” na ténue luz do amanhecer, numa clara aproximação ao equilíbrio do conhecimento;

Aquilo que, até então, sentia intensamente, agora “polvilha-se” de vagens de incerteza, assim como, aquilo que se revestia de uma dúvida constante, agora “recheia-se” de uma cesta cheia de certezas, numa clara aproximação ao equilíbrio do espaço;

Quantas aproximações ao equilíbrio, mais aqui caberiam…, muitas certamente!

Talvez, tudo isto se resuma a uma simples entrada na fase da vida em que os extremos se tocam para formarem um circulo que se fecha em torno de mim, onde deva permanecer doravante, levando a vida à medida do adquirido, aquilo que sempre me pareceu tanto, mas que se resume somente àquilo a que poderei apelidar de meu.

Restaram-me, portanto, as minhas pessoas, aquelas que ainda se mantêm comigo de “ramos” dados quer nas quedas do outono, quer no arrefecimento do inverno, quer no renascer da primavera, ou no brilho do verão.

As coisas, essas, vão perdendo cada vez mais o seu valor. Enquanto me são úteis nos seus serviços mínimos, ainda me vão fazendo algum sentido, mas tantas outras, já encostadas, quiçá aquelas que outrora tanto desejamos ter, perderam todo o seu sentido e, mais dia menos dia, voltam a ser apenas coisas.

Entro neste novo ciclo numa altura da história da humanidade em que as pessoas estão a preferir as máquinas para conversar e os animais para amar. Fui obrigado a concluir que sou um ser-humano apenas, por isso não granjeio qualquer preferência na sociedade atual, fui preterido porque não nasci máquina nem animal de estimação.

Por estas e outras, no “corredor” que ora termina, voltei a ter aquela arrepiante sensação que vou caminhando cada vez mais desacompanhado. Vão ficando para trás as pessoas para darem lugar ao vazio, mesmo aquelas que noutros “corredores” mais longínquos, preenchiam todo o espaço e ocupavam todo o tempo…, provavelmente, já não correrão para me alcançarem mais adiante. Ficaram definitivamente para trás e de algumas nem o eco voltarei a ouvir.

A vida tem de seguir, nesta constante seleção natural de humanos, em que só quem me ama passará comigo por todas as portas que ainda me possam restar para atravessar.

Continua...




Pedro Ferreira © 2025
(Todos os Direitos Reservados)

Quem é o Pedro, Afinal de Contas... - Parte 15

E assim termina mais um ciclo e se abre outro.

Chegado aos meus 57 anos de vida, continuo a fazer questão de me dar a conhecer ao mundo, pois com o avançar da idade cimento, cada vez mais, a ideia que tenho de que se não for eu a fazê-lo, outras pessoas tentarão fazê-lo por mim e de múltiplas formas, nenhuma delas credível, não fossemos nós humanos, o principal alvo da curiosidade de outros humanos.

O ciclo que ora se encerra, também, à semelhança de muitos outros, teve momentos menos bons, por nele terem decorrido acontecimentos que me ultrapassam e os quais não estão ao meu alcance evitar, nomeadamente a perda da vida de quem me era próximo, assim como, igualmente, continua a não me ser possível acabar com a maldade que impera no mundo.

Mas, graças a Deus, tudo se superou com muita elegância e sabedoria, colocando cada peça no seu devido lugar e os sucessos acabaram por brotar, nomeadamente o pleno nos estudos dos meus filhos nos seus respetivos patamares, assim como a evolução da sua maturidade de fazer inveja a muitas pessoas com bastante mais idade e que, infelizmente, teimam em manterem-se como meras crianças mimadas.

Como entro num novo ciclo repleto de coisas boas, já podendo provar da sementeira à qual me dediquei durante longos anos, desta feita, gostaria de convosco partilhar acima de tudo esperança, mas, não total, apenas focada nesse meu mundo que fiz questão de criar e onde habito com muito gosto, lamentando, portanto, não poder ser uma esperança extensível a um mundo alargado, pois as evidências estão aí, por via das desgraças que ocorrem nos seus diferentes cantos.

Gostaria, mesmo assim, do meu mundo para fora, continuar a poder levar um pouco de mim, fazendo jus ao único propósito que me deu vida, ou seja, dar amor a quem o quiser receber, de preferência renovando o meu investimento afetivo nas crianças carenciadas, assim mo permitam, porque, infelizmente, o seu número, ao contrário do que seria suposto na tão apregoada evolução da humanidade, tem aumentado exponencialmente, perigando ainda mais a sobrevivência da própria espécie.

Podemos, pois, ainda na minha geração assistir ao fim deste mundo, pelo menos conforme o conhecemos, mas não quererei levar comigo quaisquer remorsos, ou arrependimento de não ter feito absolutamente nada para o tentar evitar, quando existe tanto ao alcance de qualquer um/a de nós para o fazer. O problema é que continuamos a ser muito poucos e poucas nessa nobre missão – repito, a única que nos trouxe a este planeta – lutando contra uma massa humana muito maior que, em sentido contrário, tudo faz para o fim da nossa existência.

Pretendo agarrar-me firmemente a este meu canto que tanto me custou a construir, contra tantas criaturas perversas que o tentaram destruir. Agora um ponto de partida para todo esse mais que ainda possa fazer por essa causa maior que é assegurar a vida na Terra.

Doravante, já não me acompanharão pensamentos que me transportam para a realização de ideais de vida que dependam de outras pessoas, porque a falsidade está latente e criar expetativas no sentido de poder contar com outrem, é coisa do passado, superado e cimentado como lição de vida em virtude das consideráveis deceções a que fui obrigado a assistir.

Não quero com isto dizer que perante mim todo e qualquer semelhante se tornou um ser não confiável, bem pelo contrário, continuo a viver muito bem com o meu lema que me diz que até prova em contrário todas as pessoas são merecedoras de confiança. Porém, desta feita, com uma nuance considerável, determinante e terminante, que essa prova tem de ser dada no primeiro segundo e não se tornar, como era dantes, numa eterna espera infundada. Por isso, nos últimos tempos, algumas pessoas já devem ter acusado esta minha nova forma de encarar as relações humanas e mesmo que não tenham percebido porque logo cedo perdi o meu interesse por elas, é porque, efetivamente, a minha sensibilidade tornou-se muito mais apurada que, ao mínimo sinal, algo me diz que determinada pessoa não é para entrar na minha vida, ou não é para nela permanecer. Não me tornei exigente demais, simplesmente comecei a ouvir a minha fé.

Agora, com outra clarividência, consigo olhar para trás e ver bem melhor o que realmente correu menos bem e que, talvez, a experiência de vida entretanto adquirida, provavelmente me teria poupado de passar por isso. Mas o que é a vida, senão isto mesmo, crescer com as más experiências, aprendendo com elas a separar o trigo do joio…

Independentemente de tudo isto, constato agora que o próprio curso natural da vida, acabou por colocar cada peça no seu devido lugar e é tudo tão simples quanto isto. Fazer a nossa parte, sempre! Mas nunca tentar forçar ninguém a ser boa pessoa, simplesmente afastarmo-nos quando do outro lado a intenção não é essa.

Por isso, chego a este momento da minha própria evolução como ser-humano e observo em meu redor um considerável número de boas almas e é com apenas essas que faço questão de continuar a usufruir da nossa maior riqueza, a vida.

Continua...



Pedro Ferreira © 2025
(Todos os Direitos Reservados)

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

Quem é o Pedro, Afinal de Contas... - Parte 14

Homem pai é um alvo a abater – este é o lema que dá o mote ao ciclo de vida que ora encerro.

Separei-me, de forma pacífica, da mãe da minha filha e do meu filho, vai para mais de uma década e, igualmente de forma pacífica, os rebentos ficaram ao meu cuidado, num processo de continuidade, na medida em que fui sempre eu à cabeça da resolução e das suas necessidades mais elementares… e até aqui tudo bem!

Porém, como devem imaginar, uma vida de pai a tempo inteiro, de menina e de menino, com diferença de cinco anos entre eles, não é tarefa nada fácil por si só, ademais numa fase da humanidade dominada por pessoas de carácter muito duvidoso.

Desde então, ponderei a hipótese de ter uma companheira, naturalmente ficando recetivo a isso, a coisa mais normal num homem na minha situação, sempre focado num ideal de família em amor e entreajuda, não olhando a quem, mas sim às intenções e sentimentos. Ao abrigo desta disponibilidade, foram-se aproximando de mim, algumas “senhoras”, aparentemente imbuídas do mesmo espírito, a quem dei a devida atenção para aferir se se confirmavam as suas apregoadas boas intenções.

Salvo raríssimas exceções, existe um denominador comum entre todas elas, ou seja, vinham autorrotuladas de “grandes mulheres e de grandes mães”, vítimas de um passado afetivo desastroso, em que o “bandido” do ex-marido as maltratou ou desprezou os filhos, tornando-as “corajosas guerreiras”, que “sozinhas e a pulso” criaram os filhos sozinhas. Tretas!!!

Na verdade (aquela que, mais momento, menos momento, vem sempre ao cimo), se eu tivesse a ajuda dos papás, da choruda pensão de alimentos do progenitor das crianças e recebido uma boa herança, também hoje seria um “corajoso guerreiro”, mas, como nada disso me calhou em sorte, quedei-me, simplesmente, pelo título de Pai, sem vanglória, de forma muito honrada e honesta, portanto.

Não obstante, tornei-me, com o decorrer destes longos anos de dedicada paternidade um alvo muito apetecível para essas “senhoras”, porque as carências delas vão-lhes causando alguma agitação e não lhes convêm, para se satisfazerem, apresentarem-se socialmente e perante a família ao lado de um qualquer, mas sim de um Homem bem parecido, de preferência o contrário do ex, ou seja, um leal companheiro e um bom pai.

Daqui ao uso, abuso e, por último, deita fora, vai um passo muito curto. Porém, mesmo sendo “muito bonzinho", não me tomo por tonto e estive sempre atento às movimentações que confirmassem as palavras revestidas de tão boas intenções e, logo logo, fui constatando exatamente o contrário.

Vindo dessas “senhoras”, houve de tudo um pouco, nomeadamente das que têm a vida mais folgada, ou seja, dinheiro, títulos académicos, categorias profissionais elevadas e afins, a saber: ameaças de me denunciarem como pai incompetente, em jeito de vingança por terem ouvido um “não”; ameaças com processos judiciais, por crimes que não conseguiam indicar quais, apenas porque ouviram umas verdades; tentativas de me comprarem e aos meus filhos com ofertas e donativos monetários, quando se aperceberam que aqui não poderiam “deitar as garras” (entenda-se, unhas de gel); processo judicial na tentativa de reaver prendas materiais que me deram e aos meus filhos, só porque não permite que nos comprassem; uso e abuso da minha boa-vontade em ajudar, para de seguida fingirem que nem sequer me conhecem; usufruto pleno dos meus bens e consequente ingratidão virando costas; abandono em momentos difíceis e logo após extrema dedicação de minha parte; vocábulos ordinários após ouvirem um “basta”; e, de entre tantas outras coisas mais, a mais ignóbil de todas, o uso do nome de Deus em vão para me enganar, tirando partido da minha fé.

Existiu, efetivamente, de tudo um pouco daquilo que existe de mais perverso e promiscuo na mente humana e chego a esta fase da vida, convencido que já pouco, ou mesmo nada me resta ver daqui em diante, porque já foi aberrante demais aquilo que me passou pela frente, todas chegando dizendo horrores daquilo que as outras fizeram e saindo fazendo bem pior, com o único propósito, comum a todas, o de usarem e abusarem a seu bel prazer para depois deitarem fora, sem apelo, nem agravo.

Dizem que são lições de vida e que com elas se aprende sempre qualquer coisa. Discordo e digo-o com elevada experiência no assunto, bem pelo contrário, existem relações interpessoais que nada de novo trazem, nem pela negativa, é um padrão demasiadamente conhecido de mero oportunismo, que rola ao longo de gerações.

Claro está que, por ser um curioso nas questões da mente, não é por se tratarem de situações que vivi na primeira pessoa, que deixei de me interessar por estes fenómenos e seus profundos meandros, vindo a descobrir aspetos da mente muito interessantes e inquietantes ao mesmo tempo e que me preparam sobremaneira para novos embates, portanto, a existir alguma aprendizagem, apenas a mim o devo e não a quem passou. Hoje, domino minimamente muitos desses fenómenos que ocorrem em tantas cabeças que por essas veredas do mundo deambulam, desde o Transtorno de Personalidade Borderline, até ao Comportamento Passivo-agressivo, passando pelo Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade, como ainda, a Psicopatia, o Narcisismo a rodes e seus congéneres, características, cada qual de persi, justificando as atitudes aberrantes ora aqui descritas.

Entretanto, contra todos estes atentados a um Pai dedicado, já consegui ver a minha filha formada em Psicologia (só poderia), o meu filho com o 12º ano feito com apenas 17 anos de idade e a caminho, quiçá, da Psicologia, também (só poderia), mantendo um trabalho de risco, o nosso único sustento, em crescendo e cada vez mais consolidado, assim como paz familiar e, acima de tudo, de consciência tranquila, principalmente perante Deus e nada mais peço para mim, nem gratidão, nem reconhecimento, nem sequer respeito, porque até nisso aprendi a bastar-me sem o esperar de ninguém.

Abre-se assim novo ciclo de vida, que antevejo muito focado na família e em todas as suas mais prementes necessidades, porque os filhos partem e os pais adoecem pela idade, esperando conseguir marcar presença em ambos os cenários da melhor forma que posso e sei e assim mo permitam, sempre ao sabor da vontade divina, porque dos humanos é um risco que não quero voltar a correr.

Continua...




Pedro Ferreira © 2024
(Todos os Direitos Reservados)

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Quem é o Pedro, Afinal de Contas… (Parte 10)

A páginas tantas, não me restava outra alternativa senão adaptar-me o mais rapidamente possível à dura realidade que os humanos geraram e que não me agradava de todo. Fui tentando, mas confesso que ainda não consegui, tampouco sei se alguma vez irei conseguir adaptar-me a um mundo tão cruel.

Seja como for, a vida tinha de continuar, com maior ou menor dificuldade, sempre esperançoso em dias melhores ao lado de pessoas melhores. No entanto, a cada novo passo, infelizmente nova deceção, a seguinte sempre pior que a anterior, nomeadamente no campo afetivo. Houve de tudo, episódios completamente hilariantes, como exemplo: a tal que ia para casa do ex-marido de chave na mão para lhe lavar as cuequinhas e fazer-lhe ovos estrelados; a outra que dizia ter o “ex-marido” (leia-se marido) a dormir temporariamente no sótão, quando afinal de contas o sótão não tinha teto, era a céu aberto; aquela que ia às compras comigo e durante o caminho de volta, ligava ao ex-marido para lhe contar o que havíamos comprado para o jantar; ainda aquela que me pedia para carregar os pesados sacos de ração para os cães, mas tinha de ser antes das 16h, hora do ex-marido ir lá a casa em visita; ou, por último, a que não se lembrava que era casada e já a procissão ia a chegar à porta da igreja; etc…, etc…, etc… Autênticas comédias, felizmente a maioria delas em episódios muito curtos, pois não há mesmo pachorra para tanta imaturidade em garotas na casa dos 40/50 anos.

Felizmente, enquanto isso, a outros níveis, o sucesso era crescente e as alegrias cada vez maiores, nomeadamente a nível familiar e profissional, com destaque para um forte salto na carreira, com a participação em projetos nunca antes imaginados, como, por exemplo, o NewsMuseum, que me concedeu a honra de ver expostas de forma permanente, mais de 30 obras da minha autoria, cuja inauguração contou com a presença de ilustres convidados, como o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, o 1º Ministro, António Costa e o Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Basílio Horta, de entre outros que muito apreciaram a minha obra.

Também a vertente literária, começou a tomar proporções nunca antes sonhadas, com sistemáticos convites para escrever em publicações de considerável prestígio, arriscando em alguns casos, como da Revista Eles & Elas e mais tarde da Revista Mulher Africana, levando-me a ter de interiorizar a ideia que em mim, efetivamente, residia um certo potencial nesta área, não podendo mais negar as solicitações para que apostasse mais ainda numa aptidão que até há muito pouco tempo estava escondido no mais profundo do meu ser.

Quando finalmente havia estabilizado numa primeira habitação, apenas minha e dos meus filhos, depois de tantos tumultos e adversidades, com o propósito de viver quase em exclusivo para a família, trabalho, criatividade, causas sociais e pouco mais, convencido que tão cedo não sairia desse registo, que já levava há quase um ano, em paz e progresso, eis que surge um novo e grande tormento, para nos desassossegar, a intromissão estudada, calculada ao milímetro e bem planeada de uma pessoa de personalidade perturbada na nossa vida, que conseguiu, com recurso às mais baixas estratégias de chantagem emocional e de manipulação, causar-nos grandes danos a todos os níveis durante quase um ano, sem dó nem piedade, separando, temporariamente, filhos de pais e avós.

Contudo, como a minha vida sempre foi feita de mudanças e recomeços, beneficiando sempre, graças a Deus, dos anjos que me ia colocando pelo caminho, em apenas 3 meses dei a volta por cima e vi-me num novo registo, mais forte, mais feliz e melhor acompanhado, inclusive, podendo usufruir de mais e melhor do que aquilo que no momento anterior me havia sido retirado. Novos ares, nova casa, novo carro, novos e mais aliciantes projetos e novas amizades, um alento, uma vitória, no fundo, uma prova de enorme coragem e demonstração de dignidade.

Aprende-se sempre com as vicissitudes da vida, mas por conta própria, pois quem ensina é quem as consegue superar e ensina a superar, não é, em definitivo, como erradamente muitas vezes se diz por aí, por via de quem nos causou as dificuldades, pois com esses nada se aprende, a não ser a andar para trás…, não! Não são essas cruéis pessoas que passam nas nossas vidas que nos dão lições de vida, somos nós próprios que aprendemos connosco, pois fomos nós que soubemos dar a volta e essa é a matéria da lição, a que deve ser aprendida.

Ver, no meio de tanta confusão, os filhos a crescerem equilibrados, afáveis, amigos, educados, respeitadores e saudáveis, nunca me deixando ficar mal em parte alguma, bem pelo contrário, é o melhor alento que poderia receber e, quiçá a prova de que tudo, apesar dos pesares, valeu a pena ser vivido, pois, eles sim, aprenderam a ver como se faz e como não se faz, no fundo, aprenderam claramente a diferenciar o bem do mal, sem tabus, jogos do “esconde esconde” ou patéticas omissões, afinal de contas o mundo está aí, só não vê quem infelizmente não pode, e eles felizmente veem muito bem.

Nesta fase da minha vida, também, já podia sentir-me realizado por outro prisma, ao olhar para trás e ver muitos outros filhos igualmente criados, ciente que só não consegui fazer mais pelas crianças carenciadas, porque, infelizmente, vida de pai biológico a tempo inteiro a mais não mo permitiu. Penalizar os meus ainda mais já não seria justo, seria abusar da sua paciência, por muito que gostassem do exercício de voluntariado do pai. Uma escola de vida que serviu, em muito, de suporte à superação das dificuldades e entendimento da vida, experiência de perto de 30 anos, altamente recomendável a qualquer pessoa…, outra forma de entender o amor!

Continua…

 



Pedro Ferreira © 2020
(Todos os Direitos Reservados)

quarta-feira, 15 de abril de 2020

Quem é o Pedro, Afinal de Contas... - Parte 3

A vida em Portugal não estava fácil por essa altura, principalmente para os retornados, logo eu, como refugiado, levava por tabela. Cruéis e ignorantes, como muitos portugueses são, não facilitavam e só faltava apedrejarem-nos, porque insultos era coisa que não faltava, na medida em que receavam que esta massa humana vinda das ex-colónias lhes “roubassem” os rendimentos que de lá enviávamos;

O governo de então, por piedade, lá nos deu dois cobertores que tive de ir levantar numa fila enorme à Câmara Municipal e nada mais que isso! Felizmente a família e os amigos, mais uma vez, marcaram presença num momento de maior dificuldade, caso contrário, muita fome e frio teríamos passado.

E eis que surge uma surpresa…, vida!!! Outra mana que vinha de África na barriga da mãe! Mas, e agora, como vai ser, mais um corpo, por pequenino que seja, somente com dois cobertores? Tudo se arranja! Foi assim que o Pedro aprendeu a fazer arroz de salsichas para todos e a mudar fraldas que depois lavava no tanque de cimento até ficar com as mãos gretadas e o nariz vermelho pela fria aragem de inverno que por aquelas paragens à época se fazia sentir.

Brinquedos, não tinha, e da idealizada cidade de paus e pedras desisti por falta de material de construção…, dediquei-me à caracoleta! Ou seja, fazia corridas com os caracóis grandes lá do quintal da minha avó e melhor diversão não havia…, minto! Lembrei-me agora, por falar na minha avó materna, que fazia anos no mesmo dia que eu, uma matriarca que amo, mesmo que já tenha partido há muitos anos deste mundo, que me proporcionava uma diversão ainda melhor, as famosas "sopas de cavalo cansado", que consistia em algo para comer numa tijela de barro, composto por vinho verde tinto, pão e açúcar…, ui!!! Isso é que era uma diversão, pois a mãe nem poderia imaginar que a avó me tratava tão alegremente!

Como sobraram algumas moedas de Angola, dinheiro em tudo semelhante ao de cá, apenas mudavam as figurinhas (os angolares), o espertalhão do Pedro lá lhes dava alguma utilidade e toca de ir comprar chocolates que custavam 1 escudo na mercearia da frente, aqueles retangulares fininhos com uma prata que tinha um calhambeque estampado..., quem não se recorda? Pois, o dono da mercearia via mal e o negócio ia sendo possível até se começar a estranhar na vizinhança o facto da demasia da mercearia ter um design diferente do habitual…, só poderia ser obra dos “malditos retornados”!

Mas como o meu tio (2º Pai) pedia-me para ir à mesma mercearia buscar meio-quartilho de tinto para o jantar, pago com moedas de verdade, a coisa lá disfarçou. Só não consegui disfarçar a falta de tinto no percurso de volta, não sei porquê, o meu tio parece que media o vinho e dava sempre por falta daquele que entornava pelo caminho, para depois me perguntar porque trazia os lábios pintados de vermelho…, tinto!

Continua…



Pedro Ferreira © 2020
(Todos os Direitos Reservados)

segunda-feira, 13 de abril de 2020

Quem é o Pedro, Afinal de Contas... – Parte 2

Ficavam para trás, em terra longínqua de cor vermelha, tantas histórias que criança alguma deveria viver, trazendo comigo memórias que me acompanham desde então e que se expressam em cinco sentidos: a visão dos pertences, que tanto custaram aos meus pais adquirir com o esforço do seu trabalho, espalhados pelo caminho, semidestruídos ou mesmo destruídos, num vandalismo indescritível; o cheiro quente e agoniante da morte, emanado das pilhas de cadáveres com que me ia cruzando pelo caminho; o silvo das bombas atrás de mim e para diante, antecedendo aquele clarão ofuscante que me estremecia a alma; o trepidar do chão aonde me deitava para me proteger aquando dos rebentamentos de todo o tipo de alimentos de guerra; e o sabor amargo da transpiração resultante de tantas fontes de ignição à mistura.

Ficavam, igualmente para trás, outras tantas memórias de traquinices: a ingestão da cabeça dos fósforos de uma caixa completa e consequente passagem pelo hospital para uma “ardente” lavagem ao estômago; que somado a outros episódios caricatos e, não menos perigosos, como aquele caroço de azeitona que andou dentro do meu nariz uma semana e que somente foi possível extrair com recurso a uma espécie de berbequim, algo nunca visto antes naquele hospital; ou ainda aquela cabeça partida que trago comigo vincada na sobrancelha até hoje, bem visível ao chegar a Portugal, despertando comentários, aos quais respondia a minha mãe, para amenizar o impacto, que foi um herói, pois levou com 8 pontos a sangue-frio e não chorou…, o tanas!!! Foram precisos vários adultos para segurarem o “diabrete” enquanto era cosido!

E como não só de salvar a pele se reveste a vida do Pedro quando criança, recordo ainda como começou o meu mau jeito para o negócio: fomos dos últimos portugueses a partir, e quem fugia à nossa frente deixava os seus pertences para trás, oportunidade aproveitada por mim e pela minha irmã, para montarmos uma banca no centro da cidade…, agora imaginem a cena: duas crianças com 7 e 10 anos respetivamente, no centro da cidade de Luanda, em plena guerra, tentando vender a coisa alheia – livros em particular – a nativos que nem dinheiro tinham para comer…, rapidamente abrimos falência! 

Longe de tudo que tinha, inclusive do meu próprio pai, de quem fiquei distante durante dois anos, na incerteza se o voltaria a ver, porque teve de se manter por lá a segurar a empresa, com a vida permanentemente em risco, sujeitando-se a comer praticamente arroz com arroz, sendo este o seu generoso contributo para que hoje em dia muitas portuguesas e muitos portugueses possam ter o seu sustento e uma melhor qualidade de vida, as mesmas pessoas que lhe “agradeceram” rotulando-o depreciativamente como “retornado que lhes veio roubar o pão”.

Recomeçar a vida do nada para uma criança não foi fácil: no caminho entre casa e a escola existia o permanente receio de me encontrar com um terrorista armado ao virar da esquina; se me cruzasse com alguém que não tivesse lá muito boa apresentação, logo voltava para casa a correr… a minha “trincheira”! Para agravar a situação, os malditos foguetes da festa da Nossa Senhora das Dores, eram o recomeço do conflito armado..., um tormento para a minha mãe! Lá tinha de ir à procura do rapaz que, certamente, se havia escondido em qualquer canto para não ser atingido pelos imaginários projeteis da Santa!

À noite, na modesta casinha do fundo do quintal da avó, em 3 reduzidos quartos (9 metros quadrados, o máximo), acomodava-me junto de 4 adultos e mais crianças, mas com boa vontade tudo se arranjou. O que mais me custava suportar era o frio, tanto é que certo dia, o teto, com pena, resolveu cobrir-nos, caindo sobre nós…, era o que havia e nada de reclamar! Assim como uma casinha de banho no quintal, à qual se tivesse de recorrer durante a noite em pleno inverno, com as famosas nortadas, o mais certo era chegar lá com o xixi já congelado!

Mas lá consegui completar a 2ª classe, conforme orgulhosamente se revela na fotografia anexa.

Continua… 




Pedro Ferreira © 2020
(Todos os Direitos Reservados)

domingo, 12 de abril de 2020

Quem é o Pedro, Afinal de Contas... – Parte 1

Permitam-me que a vós, aos meus lentores, me dê a conhecer um pouco melhor. Faço-o por dois motivos: primeiro, porque tenho-vos em elevada consideração, sem vocês não teria graça escrever; por outro lado, porque na sociedade atual, seja lá por que motivo for, a tendência vai no sentido de se deduzir em vez de se perguntar e desta forma se rebatem eventuais ideias menos conseguidas que eventualmente possam ser formuladas sobre este vosso amigo, agradecendo que se tomasse como certo e sem qualquer outro tipo de interpretações o que vos conto e em caso de dúvida cá estarei eu para responder, a única pessoa habilitada para o fazer.

Posto isto, e começando por onde se deve, pelo princípio, o nascimento, que ocorreu em Luanda, decorria o Maio de 68. Uma coincidência que me leva a fazer uma curiosa analogia, ou seja, que daí só poderia resultar um revolucionário, característica que se foi acentuando com o passar dos anos até à presente data.

Vivi em Luanda em três locais diferentes, algo que também já deixava antever o que me esperaria ao longo da vida, sempre de malas feitas, pronto para toda e qualquer mudança, voluntária ou forçada, o que realmente veio a acontecer por diversas vezes. Contudo, em África fui como se quer, rebelde, aventureiro audaz, miúdo irrequieto, uma dor de cabeça para os pais, que entra para a pré-escola já a saber ler e a escrever com alguma fluência, graças ao empenho e dedicação de mãe e pai, uns autênticos professores dentro de casa, mas que pelo caminho entre casa e a escola era capaz de fazer os mais impensáveis disparates, nomeadamente desafiando a natureza, trepando árvores, correndo atrás de animais, brincando com insetos, levantando as sais das quitandeiras que transportavam pesados cestos de fruta à cabeça, logo indefesas perante as minhas “maldades”, no fundo, um bom reguila.

Depois, de súbito, por graves problemas de saúde de um familiar, vejo-me a viver em Joanesburgo, limitado pelo regime de apartheid, portanto, sem poder fazer as minhas malandrices às nativas, dando-me para outro tipo de atrevimentos, ou seja, como residia numa zona de moradias, entretinha-me a saltar dos telhados para os bonitos e fofos relvados que as ladeavam… uma dor de cabeça para a minha mãe, lá em baixo à espera, de braços abertos, da primeira aterragem falhada.

Nessa altura, como a minha irmã mais velha era pior que eu nestas aventuras, as coisas chegavam a extremos, como enveredar pelo meio do mato à descoberta da vida selvagem, ou à primeira oportunidade de distração da nossa mãe, cidade dentro, ao ritmo do bulício. Algo que perdurou aquando do regresso a Luanda, já em período de conflito bélico, ou seja, um perigo à solta dentro de outro perigo, ora enfrentando o desconhecido por caminhos cheios de armadilhas, trilhos de brincadeiras entre disparos ocasionais, ora me escondendo nos sítios mais inimagináveis quando as armas falavam mais altos que os pássaros. Um grande desafio para me descobrirem, às vezes até adormecia nesses espaços.

Fugi duas vezes na vida, uma delas foi desse conflito para Portugal, numa de tentar salvar a pele, trazendo comigo a maqueta de paus e pedras da cidade de brincar que estava a construir, mais uma antevisão do que me esperaria no futuro, um criativo que deixou os melhores brinquedos para trás, os mesmos que vi pela última vez, quando espalhados pela estrada depois da nossa casa ter sido vandalizada, pois, não eram esses que me preenchiam, ficavam para os outros meninos, os de lá, que não tinham senão paus e pedras. Talvez, desta forma, tenha nascido uma outra vertente que seria muito importante no percurso de vida que tinha à minha espera, as causas relacionadas com a infância mais desfavorecida. Converter o mau em bom e o bom em excelente.

Continua…




Pedro Ferreira © 2020
(Todos os Direitos Reservados)