terça-feira, 11 de novembro de 2025
Quem é o Pedro, Afinal de Contas... - Parte 16
Quem é o Pedro, Afinal de Contas... - Parte 15
quinta-feira, 5 de setembro de 2024
Quem é o Pedro, Afinal de Contas... - Parte 14
quinta-feira, 30 de abril de 2020
Quem é o Pedro, Afinal de Contas… (Parte 10)
A páginas tantas, não me restava outra alternativa senão adaptar-me o mais rapidamente possível à dura realidade que os humanos geraram e que não me agradava de todo. Fui tentando, mas confesso que ainda não consegui, tampouco sei se alguma vez irei conseguir adaptar-me a um mundo tão cruel.
Seja como for, a vida tinha de continuar, com maior ou menor dificuldade, sempre esperançoso em dias melhores ao lado de pessoas melhores. No entanto, a cada novo passo, infelizmente nova deceção, a seguinte sempre pior que a anterior, nomeadamente no campo afetivo. Houve de tudo, episódios completamente hilariantes, como exemplo: a tal que ia para casa do ex-marido de chave na mão para lhe lavar as cuequinhas e fazer-lhe ovos estrelados; a outra que dizia ter o “ex-marido” (leia-se marido) a dormir temporariamente no sótão, quando afinal de contas o sótão não tinha teto, era a céu aberto; aquela que ia às compras comigo e durante o caminho de volta, ligava ao ex-marido para lhe contar o que havíamos comprado para o jantar; ainda aquela que me pedia para carregar os pesados sacos de ração para os cães, mas tinha de ser antes das 16h, hora do ex-marido ir lá a casa em visita; ou, por último, a que não se lembrava que era casada e já a procissão ia a chegar à porta da igreja; etc…, etc…, etc… Autênticas comédias, felizmente a maioria delas em episódios muito curtos, pois não há mesmo pachorra para tanta imaturidade em garotas na casa dos 40/50 anos.
Felizmente, enquanto isso, a outros níveis, o sucesso era crescente e as alegrias cada vez maiores, nomeadamente a nível familiar e profissional, com destaque para um forte salto na carreira, com a participação em projetos nunca antes imaginados, como, por exemplo, o NewsMuseum, que me concedeu a honra de ver expostas de forma permanente, mais de 30 obras da minha autoria, cuja inauguração contou com a presença de ilustres convidados, como o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, o 1º Ministro, António Costa e o Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Basílio Horta, de entre outros que muito apreciaram a minha obra.
Também a vertente literária, começou a tomar proporções nunca antes sonhadas, com sistemáticos convites para escrever em publicações de considerável prestígio, arriscando em alguns casos, como da Revista Eles & Elas e mais tarde da Revista Mulher Africana, levando-me a ter de interiorizar a ideia que em mim, efetivamente, residia um certo potencial nesta área, não podendo mais negar as solicitações para que apostasse mais ainda numa aptidão que até há muito pouco tempo estava escondido no mais profundo do meu ser.
Quando finalmente havia estabilizado numa primeira habitação, apenas minha e dos meus filhos, depois de tantos tumultos e adversidades, com o propósito de viver quase em exclusivo para a família, trabalho, criatividade, causas sociais e pouco mais, convencido que tão cedo não sairia desse registo, que já levava há quase um ano, em paz e progresso, eis que surge um novo e grande tormento, para nos desassossegar, a intromissão estudada, calculada ao milímetro e bem planeada de uma pessoa de personalidade perturbada na nossa vida, que conseguiu, com recurso às mais baixas estratégias de chantagem emocional e de manipulação, causar-nos grandes danos a todos os níveis durante quase um ano, sem dó nem piedade, separando, temporariamente, filhos de pais e avós.
Contudo, como a minha vida sempre foi feita de mudanças e recomeços, beneficiando sempre, graças a Deus, dos anjos que me ia colocando pelo caminho, em apenas 3 meses dei a volta por cima e vi-me num novo registo, mais forte, mais feliz e melhor acompanhado, inclusive, podendo usufruir de mais e melhor do que aquilo que no momento anterior me havia sido retirado. Novos ares, nova casa, novo carro, novos e mais aliciantes projetos e novas amizades, um alento, uma vitória, no fundo, uma prova de enorme coragem e demonstração de dignidade.
Aprende-se sempre com as vicissitudes da vida, mas por conta própria, pois quem ensina é quem as consegue superar e ensina a superar, não é, em definitivo, como erradamente muitas vezes se diz por aí, por via de quem nos causou as dificuldades, pois com esses nada se aprende, a não ser a andar para trás…, não! Não são essas cruéis pessoas que passam nas nossas vidas que nos dão lições de vida, somos nós próprios que aprendemos connosco, pois fomos nós que soubemos dar a volta e essa é a matéria da lição, a que deve ser aprendida.
Ver, no meio de tanta confusão, os filhos a crescerem equilibrados, afáveis, amigos, educados, respeitadores e saudáveis, nunca me deixando ficar mal em parte alguma, bem pelo contrário, é o melhor alento que poderia receber e, quiçá a prova de que tudo, apesar dos pesares, valeu a pena ser vivido, pois, eles sim, aprenderam a ver como se faz e como não se faz, no fundo, aprenderam claramente a diferenciar o bem do mal, sem tabus, jogos do “esconde esconde” ou patéticas omissões, afinal de contas o mundo está aí, só não vê quem infelizmente não pode, e eles felizmente veem muito bem.
Nesta fase da minha vida, também, já podia sentir-me realizado por outro prisma, ao olhar para trás e ver muitos outros filhos igualmente criados, ciente que só não consegui fazer mais pelas crianças carenciadas, porque, infelizmente, vida de pai biológico a tempo inteiro a mais não mo permitiu. Penalizar os meus ainda mais já não seria justo, seria abusar da sua paciência, por muito que gostassem do exercício de voluntariado do pai. Uma escola de vida que serviu, em muito, de suporte à superação das dificuldades e entendimento da vida, experiência de perto de 30 anos, altamente recomendável a qualquer pessoa…, outra forma de entender o amor!
Continua…
quarta-feira, 15 de abril de 2020
Quem é o Pedro, Afinal de Contas... - Parte 3
segunda-feira, 13 de abril de 2020
Quem é o Pedro, Afinal de Contas... – Parte 2
Ficavam para trás, em terra longínqua de cor vermelha, tantas histórias que criança alguma deveria viver, trazendo comigo memórias que me acompanham desde então e que se expressam em cinco sentidos: a visão dos pertences, que tanto custaram aos meus pais adquirir com o esforço do seu trabalho, espalhados pelo caminho, semidestruídos ou mesmo destruídos, num vandalismo indescritível; o cheiro quente e agoniante da morte, emanado das pilhas de cadáveres com que me ia cruzando pelo caminho; o silvo das bombas atrás de mim e para diante, antecedendo aquele clarão ofuscante que me estremecia a alma; o trepidar do chão aonde me deitava para me proteger aquando dos rebentamentos de todo o tipo de alimentos de guerra; e o sabor amargo da transpiração resultante de tantas fontes de ignição à mistura.
Ficavam, igualmente para trás, outras tantas memórias de traquinices: a ingestão da cabeça dos fósforos de uma caixa completa e consequente passagem pelo hospital para uma “ardente” lavagem ao estômago; que somado a outros episódios caricatos e, não menos perigosos, como aquele caroço de azeitona que andou dentro do meu nariz uma semana e que somente foi possível extrair com recurso a uma espécie de berbequim, algo nunca visto antes naquele hospital; ou ainda aquela cabeça partida que trago comigo vincada na sobrancelha até hoje, bem visível ao chegar a Portugal, despertando comentários, aos quais respondia a minha mãe, para amenizar o impacto, que foi um herói, pois levou com 8 pontos a sangue-frio e não chorou…, o tanas!!! Foram precisos vários adultos para segurarem o “diabrete” enquanto era cosido!
E como não só de salvar a pele se reveste a vida do Pedro quando criança, recordo ainda como começou o meu mau jeito para o negócio: fomos dos últimos portugueses a partir, e quem fugia à nossa frente deixava os seus pertences para trás, oportunidade aproveitada por mim e pela minha irmã, para montarmos uma banca no centro da cidade…, agora imaginem a cena: duas crianças com 7 e 10 anos respetivamente, no centro da cidade de Luanda, em plena guerra, tentando vender a coisa alheia – livros em particular – a nativos que nem dinheiro tinham para comer…, rapidamente abrimos falência!
Longe de tudo que tinha, inclusive do meu próprio pai, de quem fiquei distante durante dois anos, na incerteza se o voltaria a ver, porque teve de se manter por lá a segurar a empresa, com a vida permanentemente em risco, sujeitando-se a comer praticamente arroz com arroz, sendo este o seu generoso contributo para que hoje em dia muitas portuguesas e muitos portugueses possam ter o seu sustento e uma melhor qualidade de vida, as mesmas pessoas que lhe “agradeceram” rotulando-o depreciativamente como “retornado que lhes veio roubar o pão”.
Recomeçar a vida do nada para uma criança não foi fácil: no caminho entre casa e a escola existia o permanente receio de me encontrar com um terrorista armado ao virar da esquina; se me cruzasse com alguém que não tivesse lá muito boa apresentação, logo voltava para casa a correr… a minha “trincheira”! Para agravar a situação, os malditos foguetes da festa da Nossa Senhora das Dores, eram o recomeço do conflito armado..., um tormento para a minha mãe! Lá tinha de ir à procura do rapaz que, certamente, se havia escondido em qualquer canto para não ser atingido pelos imaginários projeteis da Santa!
À noite, na modesta casinha do fundo do quintal da avó, em 3 reduzidos quartos (9 metros quadrados, o máximo), acomodava-me junto de 4 adultos e mais crianças, mas com boa vontade tudo se arranjou. O que mais me custava suportar era o frio, tanto é que certo dia, o teto, com pena, resolveu cobrir-nos, caindo sobre nós…, era o que havia e nada de reclamar! Assim como uma casinha de banho no quintal, à qual se tivesse de recorrer durante a noite em pleno inverno, com as famosas nortadas, o mais certo era chegar lá com o xixi já congelado!
Mas lá consegui completar a 2ª classe, conforme orgulhosamente se revela na fotografia anexa.
Continua…






