A páginas tantas, não me restava outra alternativa senão adaptar-me o mais rapidamente possível à dura realidade que os humanos geraram e que não me agradava de todo. Fui tentando, mas confesso que ainda não consegui, tampouco sei se alguma vez irei conseguir adaptar-me a um mundo tão cruel.
Seja como for, a vida tinha de continuar, com maior ou menor dificuldade, sempre esperançoso em dias melhores ao lado de pessoas melhores. No entanto, a cada novo passo, infelizmente nova deceção, a seguinte sempre pior que a anterior, nomeadamente no campo afetivo. Houve de tudo, episódios completamente hilariantes, como exemplo: a tal que ia para casa do ex-marido de chave na mão para lhe lavar as cuequinhas e fazer-lhe ovos estrelados; a outra que dizia ter o “ex-marido” (leia-se marido) a dormir temporariamente no sótão, quando afinal de contas o sótão não tinha teto, era a céu aberto; aquela que ia às compras comigo e durante o caminho de volta, ligava ao ex-marido para lhe contar o que havíamos comprado para o jantar; ainda aquela que me pedia para carregar os pesados sacos de ração para os cães, mas tinha de ser antes das 16h, hora do ex-marido ir lá a casa em visita; ou, por último, a que não se lembrava que era casada e já a procissão ia a chegar à porta da igreja; etc…, etc…, etc… Autênticas comédias, felizmente a maioria delas em episódios muito curtos, pois não há mesmo pachorra para tanta imaturidade em garotas na casa dos 40/50 anos.
Felizmente, enquanto isso, a outros níveis, o sucesso era crescente e as alegrias cada vez maiores, nomeadamente a nível familiar e profissional, com destaque para um forte salto na carreira, com a participação em projetos nunca antes imaginados, como, por exemplo, o NewsMuseum, que me concedeu a honra de ver expostas de forma permanente, mais de 30 obras da minha autoria, cuja inauguração contou com a presença de ilustres convidados, como o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, o 1º Ministro, António Costa e o Presidente da Câmara Municipal de Sintra, Basílio Horta, de entre outros que muito apreciaram a minha obra.
Também a vertente literária, começou a tomar proporções nunca antes sonhadas, com sistemáticos convites para escrever em publicações de considerável prestígio, arriscando em alguns casos, como da Revista Eles & Elas e mais tarde da Revista Mulher Africana, levando-me a ter de interiorizar a ideia que em mim, efetivamente, residia um certo potencial nesta área, não podendo mais negar as solicitações para que apostasse mais ainda numa aptidão que até há muito pouco tempo estava escondido no mais profundo do meu ser.
Quando finalmente havia estabilizado numa primeira habitação, apenas minha e dos meus filhos, depois de tantos tumultos e adversidades, com o propósito de viver quase em exclusivo para a família, trabalho, criatividade, causas sociais e pouco mais, convencido que tão cedo não sairia desse registo, que já levava há quase um ano, em paz e progresso, eis que surge um novo e grande tormento, para nos desassossegar, a intromissão estudada, calculada ao milímetro e bem planeada de uma pessoa de personalidade perturbada na nossa vida, que conseguiu, com recurso às mais baixas estratégias de chantagem emocional e de manipulação, causar-nos grandes danos a todos os níveis durante quase um ano, sem dó nem piedade, separando, temporariamente, filhos de pais e avós.
Contudo, como a minha vida sempre foi feita de mudanças e recomeços, beneficiando sempre, graças a Deus, dos anjos que me ia colocando pelo caminho, em apenas 3 meses dei a volta por cima e vi-me num novo registo, mais forte, mais feliz e melhor acompanhado, inclusive, podendo usufruir de mais e melhor do que aquilo que no momento anterior me havia sido retirado. Novos ares, nova casa, novo carro, novos e mais aliciantes projetos e novas amizades, um alento, uma vitória, no fundo, uma prova de enorme coragem e demonstração de dignidade.
Aprende-se sempre com as vicissitudes da vida, mas por conta própria, pois quem ensina é quem as consegue superar e ensina a superar, não é, em definitivo, como erradamente muitas vezes se diz por aí, por via de quem nos causou as dificuldades, pois com esses nada se aprende, a não ser a andar para trás…, não! Não são essas cruéis pessoas que passam nas nossas vidas que nos dão lições de vida, somos nós próprios que aprendemos connosco, pois fomos nós que soubemos dar a volta e essa é a matéria da lição, a que deve ser aprendida.
Ver, no meio de tanta confusão, os filhos a crescerem equilibrados, afáveis, amigos, educados, respeitadores e saudáveis, nunca me deixando ficar mal em parte alguma, bem pelo contrário, é o melhor alento que poderia receber e, quiçá a prova de que tudo, apesar dos pesares, valeu a pena ser vivido, pois, eles sim, aprenderam a ver como se faz e como não se faz, no fundo, aprenderam claramente a diferenciar o bem do mal, sem tabus, jogos do “esconde esconde” ou patéticas omissões, afinal de contas o mundo está aí, só não vê quem infelizmente não pode, e eles felizmente veem muito bem.
Nesta fase da minha vida, também, já podia sentir-me realizado por outro prisma, ao olhar para trás e ver muitos outros filhos igualmente criados, ciente que só não consegui fazer mais pelas crianças carenciadas, porque, infelizmente, vida de pai biológico a tempo inteiro a mais não mo permitiu. Penalizar os meus ainda mais já não seria justo, seria abusar da sua paciência, por muito que gostassem do exercício de voluntariado do pai. Uma escola de vida que serviu, em muito, de suporte à superação das dificuldades e entendimento da vida, experiência de perto de 30 anos, altamente recomendável a qualquer pessoa…, outra forma de entender o amor!
Continua…

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