segunda-feira, 12 de setembro de 2022

ABRAÇAR PORTUGAL – PALÁCIO DA BREJOEIRA

O caminho já ia longo e Arcos de Valdevez tinha ficado para trás fazia uma meia-hora, com o objetivo de chegar a Monção onde iria saber como néctar dos deuses uma água fresca tomada à beira-rio num dia ardente de verão, quando, inesperadamente, para quem passa por aqueles lados por uma primeira vez, surge à margem da estrada uma entrada para um cenário em tudo semelhante aos que aparecem nos contos de fadas.

Aguçada a curiosidade e desperta a vontade de interagir com aquele cenário, os primeiros passos são delicados, pautados por uma encantadora, mas ao mesmo tempo estranha sensação de se estar a entrar num espaço que pertence a outro mundo e a outra época, onde o silêncio ecoa por todo o lado.

Pessoas famosas, dizem as regras do protocolo, são recebidas com um tapete vermelho, mas para quem ao abrigo do anonimato, simplesmente, apenas pretende apreciar coisas belas, o frondoso verde do relvado que medeia o portão da quinta e o imponente edifício principal, serve perfeitamente como tapete de receção, a não pisar e ajuda a descontrair, tornando os passos mais confiantes e prazerosos.

Maria Hermínia Silva d’Oliveira Paes, ilustre empreendedora da região, é um nome que se ouve logo à chegada, na medida em que, sem se dar conta, encontramo-nos dentro de uma enorme prenda que seu pai, Francisco de Oliveira Paes, lhe ofereceu em 1937, adquirida por um valor, convertido em euros, equivalente a 3000€. Belíssima prenda, na qual residiu até ao final dos seus dias numa ala reservada, a qual, até à presente data, se encontra interdita ao público, aguçando ainda mais a curiosidade dos visitantes, sobre as múltiplas fascinantes histórias das quais aquelas enormes paredes se tornaram fiéis guardiãs.

Claro está, que desde que foi idealizada, iniciada a sua construção e finda, impressionantemente, apenas quase 3 décadas mais tarde, assim como por via das consequentes aquisições, algumas outras ilustres figuras foram dando vida a este espaço, resultando em muitas outras histórias ora contadas, ora ficadas por contar para sempre, as quais se ilustram com a multiplicidade e diversidade de peças decorativas, ferramentas e mobiliário, de entre outros objetos, que podem ser apreciados de compartimento para compartimento, ou de área para área, interior ou exterior, cada qual com o seu fascínio, como se estivéssemos a assistir a uma peça de teatro com vários palcos.

Das histórias que se contam, uma diz-nos que por aqui terão passado Salazar e Franco, que ao bom jeito do regime português de então, assente num único lema, o do “quero posso e mando”, quem ditava as regras em casa alheia era o ditador, inclusive as regras de indumentária da própria anfitriã, cuja presença somente era permitida por convite, que a ser aceite tinha como regra número um “ficar calada o tempo todo”. Novamente o silêncio…

Por aqui, tudo parece levar muito tempo e em silêncio se espera, como a aguardente dentro das barricas de casca de carvalho francês que espera na sombria e belíssima adega, que decorram 10 a 12 anos para que finalmente possa revelar o seu característico tom caramelo de sublime sabor aveludado.

Apenas os sinos, a “central de telecomunicações” da quinta, quer o de toque mais grave, ou o de toque mais agudo, quando tocados, quebram o silêncio daquele chão brejo onde cravam as raízes o Alvarinho e o Palácio da Brejoeira.


Palácio da Brejoeira

ANÁLISE EXTERNA

 

Análise Literária

A crônica apresenta um tom lírico e contemplativo, misturando descrição sensorial, reflexão histórica e impressões pessoais. O autor conduz o leitor por uma viagem quase onírica ao Palácio da Brejoeira, tratando o espaço como uma entidade viva e misteriosa. O recurso à personificação, como nas expressões “o silêncio ecoa por todo o lado” e “enorme prenda”, confere ao texto uma aura de encantamento.

Há também um toque de crítica sutil aos tempos passados, nomeadamente à presença de figuras autoritárias como Salazar e Franco, através da ironia e de referências indiretas à repressão e ao silêncio imposto. O final retoma esse silêncio, criando uma estrutura circular e simbólica.

A linguagem é rica em imagens, quase cinematográfica, com uma cadência que convida à leitura pausada e apreciativa, como se fosse um passeio guiado.


Análise Gramatical

Gramaticalmente, o texto é em geral bem construído, com vocabulário cuidado e frases longas, de estilo mais clássico.


Interesse do Público

A crônica tem forte apelo turístico-cultural, especialmente para públicos que apreciam:

  • História e património português;
  • Viagens e descobertas locais;
  • Narrativas com ambiente nostálgico e poético.

Ela também pode agradar a leitores interessados em curiosidades históricas e em locais menos conhecidos com forte carga simbólica e estética.

No entanto, o ritmo lento e a linguagem densa podem afastar leitores que preferem textos mais objetivos ou com uma estrutura narrativa linear. Para o público jovem e digital, a crônica pode parecer extensa e introspectiva demais, mas para um leitor maduro, curioso e apreciador de literatura e património, trata-se de uma peça encantadora e evocativa.


Conclusão: 8,5 (de 0 a 10)

Pedro Ferreira constrói uma crônica rica em sensibilidade, história e descrição estética, que convida o leitor a uma experiência sensorial e emocional. Com uma beleza contemplativa que certamente agradará a amantes da cultura e do Portugal profundo.


Pedro Ferreira © 2022
(Todos os Direitos Reservados)

 

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