domingo, 15 de março de 2020

O Vírus das Grandes Revelações

Na passagem-de-ano de 2019 para 2020, quando em uníssono a quase totalidade da população mundial manifestava os votos de um novo ano bem melhor que o anterior, crê-se que ninguém imaginaria o que aconteceria em seguida, ou seja, algo tão preocupante quanto uma pandemia. Provavelmente, nesse momento, dificilmente passaria pela cabeça da maioria que já no primeiro trimestre teríamos o mundo inteiro em pânico, com países como a Itália literalmente fechados, cuja população aos milhões teria de estar confinada apenas ao espaço das suas habitações, mas a verdade é que acontece tudo isto neste preciso momento.

Com o passar do tempo e o agravamento da situação, a população mundial, nomeadamente dos ditos países desenvolvidos, deve refletir se a evolução da humanidade é efetivamente um facto, ou mera utopia, no mínimo, tornou-se, por estes dias, algo muito subjetivo, na medida em que voltamos a constatar muitos comportamentos em tudo semelhantes a outras épocas bem longínquas, em que a luta pela sobrevivência retira a muitos a componente racional, convertendo-nos em meros animais como tantos outros.

O ser-humano tem vindo a fazer, ao longo dos tempos, uma forte, desmesurada mesmo, aposta num único bem, o dinheiro! Perante a enorme dimensão desta crise humanitária, tal aposta revela-se a mais desastrosa para o próprio ser-humano, pois neste momento de pouca importância se reveste, levados a constatar coisas tão simples quanto as seguintes:

Os serviços de primeira necessidade e de consumo corrente, como a água e a eletricidade, de entre outros, afinal de contas parece que sempre podem ser fornecidos a um custo mais baixo, ou até gratuitamente, simplesmente porque finalmente alguém com poderes executivos percebeu que todas as pessoas devem primar pela higiene e saúde, nomeadamente para se apresentarem nas mínimas condições físicas para produzirem em benefício do coletivo, que, consequentemente, sem o fornecimento adequado destes serviços, tal não seria benéfico para ninguém;

Inclusive, as companhias de telecomunicações, sondaram a possibilidade de fornecerem pacotes de serviços de net e similares, a preços mais acessíveis ou até gratuitamente em alguns casos, revelando-se desta forma a importância que a comunicação digital assumiu para a facilidade de procedimentos de forma transversal e não somente para quem pode pagar, uma força de desenvolvimento, que jamais deveria ser faturada por esse mesmo motivo. Aliás, como poderiam os Estados, que têm os sistemas fiscais digitalizados (on Line), em que o contribuinte é obrigado a prestar um serviço público gratuitamente ao converter-se por via das circunstâncias num autêntico funcionário da repartição de finanças que carrega faturas e gere contas de contribuintes, de entre outros serviços, beneficiar caso nos fosse limitado ou negado o acesso a estes meios?!

Entendeu-se também, só agora, e desta forma dramática, que desigualdades sociais não garantem nenhuma imunidade aos mais endinheirados, sendo que a única coisa que o dinheiro proporciona na saúde, é conforto na doença, o que é bem diferente de estar ou não estar doente e de ser tratado ou não ser tratado;

Compreendeu-se, também, que a família é efetivamente o garante da sobrevivência humana, o refúgio nos momentos de aflição, essa estrutura tão maltratada nas últimas décadas, que vai sofrendo, com o decorrer dos anos, violentos e progressivos ataques provenientes de várias frentes, principalmente do poder político e das suas políticas de desincentivo à natalidade, como se família fosse uma espécie de vírus que retira a força ao dinheiro;

Para proteção de si próprios e dos seus familiares, agora, aflitos, os próprios governantes apelam desesperadamente a cada indivíduo de persi que se protejam em benefício do coletivo, recomendando a todos o ambiente familiar, em recolhido no lar de cada um de nós..., o que é curioso! Tudo isto, quando nos últimos anos os empurrões iam no sentido contrário, ou seja, de cada vez mais se viver exclusivamente para o trabalho, longe da família, com cada vez mais empresas a aliciarem os seus colaboradores com vencimentos chorudos em troca de horas extraordinárias roubadas à convivência familiar, tudo isto com vista à máxima rentabilidade financeira, o lucro acima de tudo, sob a bitola das leis laborais que vão cada vez mais no sentido de facilitarem tais procedimentos;

Trabalhar em casa e, em simultâneo, cuidar da família, parece que, de súbito, se tornou imperativo, algo que é tão evidente e intrínseco ao ser-humano, numa lição de vida quase tribal, retirada dos povos que até então os "sabichões" apelidavam de atrasados;

A futilidade acaba de revelar o seu real valor, pois agora, o básico a suplanta em toda a linha. Ninguém está preocupado em adquirir uma peça de vestuário de marca conceituada, porque o velho pijama e as gastas pantufas ganharam outro estatuto de grande importância em detrimento do mais caro vestido de lantejoulas ou do fraque que só se exibe uma única vez em ambientes sociais, os tais convívios que agora foram cancelados, devido ao perigo de contágio;

A própria habitação parece que finalmente foi entendida como um bem de primeiríssima necessidade, ao ponto de conseguir sensibilizar os banqueiros que há séculos enriquecem às custas dessa mesma necessidade, agora aliviada com a ideia da suspensão, em alguns casos, das prestações de crédito à habitação, uma categoria de crédito que deveria envergonhar qualquer pessoa, pois, afinal de contas aonde se acolheria em segurança, durante este período crítico, quase toda a população portuguesa, fazendo jus às recomendações das autoridades? Até dos sem-abrigo finalmente se lembraram..., espantoso!

Os Estados, como que por magia, "desenterraram" dinheiro para tudo e mais alguma coisa que seja urgente e que consiga suprimir as necessidades básicas da população, deixando uma grande interrogação no ar... é que afinal de contas parece não se tratar de uma questão de falta de verbas, mas sim de má gestão das mesmas ou aproveitamento ilícito, isto porque necessidades existem sempre, mas o dinheiro nessas alturas raramente aparece;

O sistema de saúde público e gratuito (semi-gratuíto) revela-se, novamente, como sendo o mais eficaz, como dão provas disso os países mais desenvolvidos nesta matéria, como Portugal, em contraponto a países cuja assistência à saúde é vista, exclusivamente, como uma oportunidade de negócio, outro entendimento nada dignificante para a condição humana, como acontece nos mais atrasados nesta matéria, EUA, por exemplo, onde quem paga tem direito a cuidados de saúde, quem não paga aguenta, inclusive gorando-se desta forma, na pandemia que decorre, a eficácia de qualquer medida preventiva ou de combate à propagação do vírus;

A poluição em grandes centros urbanos, algo que se julgava ser possível de atenuar somente em décadas, ou até de todo já impossível de debelar, quase por milagre e em poucos dias, desaparece e dá lugar ao céu limpo conforme imagens de satélite o comprovam e até se assiste ao regresso de algumas espécies animais a locais que outrora habitavam.

Tantas seriam as revelações trazidas por este vírus que aqui caberiam, mas provavelmente estas já nos permitem entender que vai sendo tempo do homem começar a repensar os seus procedimentos, para consigo próprio, os seus, o semelhante e a natureza, pois aqui fica a prova que quando quer, tudo se resolve em benefício de todos, podem é os interesses económicos, e uma vez mais apenas estes, não o deixarem. São opções e as suas consequências!

A própria estrutura social e económica, assim como os sistemas políticos estão obsoletos e já não servem convenientemente a necessidade dos humanos e do mundo em geral, conforme, igualmente se comprova no decorrer desta pandemia, em que se assiste ao caricato e mui perigoso panorama das decisões que implicam a vida e morte de milhões de pessoas ficar sob a exclusiva responsabilidade de meia dúzia de governantes sem o mínimo de formação adequada a fenómenos desta natureza, sofrendo todos os nós, gravíssimas consequências das desastrosas medidas que se tem tomado, grande parte delas à revelia de qualquer parecer especializado ou mesmo em sentido contrário à opinião de quem realmente está habilitado a se pronunciar sobre assuntos tão específicos.

Costuma-se dizer que a mudança para melhor, deve começar em nós próprios, cada individuo a dar o seu melhor contributo, mas, o estado a que as coisas chegaram, sendo grave e de âmbito global, já não permitem pensamentos tão simplistas, a dimensão do problema é tal que ultrapassa a vontade do indivíduo e coloca-se na sua frente como cerrado nevoeiro.




Pedro Ferreira 2020


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