Algures num pequeno jardim de encantar, existia uma lagarta forte e gorda, porque se alimentava avidamente das folhas das plantas. De tal forma o fez, que decorrido um mês de farto repasto, olhou em seu redor e viu que o jardim lhe parecia triste e descolorido, com as flores a murcharem, despidas das suas folhas e a sua farta “despensa” a ficar vazia.
Ao mesmo tempo sentia-se pesada e vulnerável aos predadores, pois mal se conseguia movimentar de tão gorda estar. Preocupada com a situação e receosa em relação ao futuro, arrependida, sentindo-se culpada pelos danos causados a tantas plantas e a ela própria, repleta de remorsos, começou a pensar na asneira que havia feito e numa solução para reparar o seu estrago.
Recolheu-se num ramo de uma planta e ali se manteve, quieta, pensativa. Foi então, que, de súbito, sentiu o seu corpo a metamorfosear-se, ficando cada vez mais imóvel, mergulhando num longo repouso, parecendo ela própria se ter transformado numa triste folha pendurada como uma das muitas folhas das plantas que devorou. Triste e só, naquele estado permaneceu por algum tempo, como se tudo estivesse perdido, à espera de um fim que parecia ser uma fatalidade, para si e para todo o jardim.
Decorridas duas semanas, sente o casulo que a envolveu a soltar-se e depois a cair no chão, renascendo num corpo diferente, dotado de umas lindas asas de azul brilhante, que de pronto agitou para se erguer no ar num voo estonteante de felicidade. Porém, não se deixou envaidecer, apesar da sua encantadora beleza, pelo contrário, humildemente aproveitou a nova vida para se redimir do estrago causado e rapidamente se dirigiu às plantas do jardim e de flor em flor foi pousando, pedindo desculpa a cada uma delas, oferecendo-se para ajudar a repor o jardim conforme o encontrou, viçoso e colorido, assim como cheio de vida.
A cada nova visita, levava consigo o precioso pólen da vida que espalhou por toda a parte, do qual as flores se alimentavam e rejuvenesciam, dando lugar a novas plantas, permitindo que a vida retomasse o seu estado natural, cumprindo-se assim a missão daquela triste lagarta de outrora, agora uma linda borboleta admirada e desejada por todas as plantas e restantes animais daquele jardim.
Por ali, andava uma pequena cobra, sempre atenta a todos os movimentos, portanto, não lhe passou despercebido todo o processo da lagarta até ser borboleta e consequente feito em benefício do jardim. Era uma cobra, naturalmente, temida por aqueles lados, ora pelas plantas que se sentiam derrubadas e magoadas à sua passagem, ora pelos outros animais que sabiam que a qualquer momento poderiam ser caçados. Curiosa com tamanho feito, foi ter com a borboleta e perguntou-lhe…
- Linda borboleta, diz-me uma coisa: Como conseguiste essas belas e tão admiradas asas azuis que te ajudaram a fazer todas estas maravilhas?
Assustada, mas sob a defesa da sua capacidade de voar que lhe permitia um afastamento seguro em caso de ataque, a borboleta respondeu:
- Não foi fácil, reconheço! O mais importante é sabermos conhecer os nossos erros, assumir a responsabilidade do mal que causamos, acreditando que podemos ser melhores daí em diante e não perder a oportunidade de compensarmos a quem prejudicamos, repondo as coisas como estavam. Assim, ganhamos asas, que poderão ser azuis, ou de outra cor qualquer, grandes, ou pequenas, vistosas ou nem por isso, não importa! O que importa é que sejam asas que nos libertem e nos ajudem a viver com tranquilidade, evitando que sigamos o resto da vida na prisão de uma consciência pesada.
A cobra, por momentos, sentiu um rebate de consciência, porque afinal de contas, também, ela já tinha feito muito mal a tantas plantas e animais daquele jardim, do qual voltava a beneficiar grandemente por via dos grandes feitos da borboleta. Então, pensou fazer o mesmo que a borboleta fez para tentar redimir-se de todo o mal…
- Achas que se fizer como tu, ficar pendurada numa planta durante uns tempos, também, consigo ganhar asas e voar? – Mais acrescentando – Afinal de contas, sou como tu eras, de corpo cilíndrico, que rasteja entre as plantas, torcendo-o!
- Tenta, porque como te disse antes, não importa como são as asas, o importante é o que fazes delas. Boa sorte! – Assim lhe respondeu a borboleta, em jeito de despedida, voando para longe.
Repleta do seu orgulho e da sua vaidade, não querendo dar parte de fraca, iludida pela ideia que poderia conseguir igual feito, a cobra decide colocar em marcha o seu plano. Pendura-se imóvel num ramo de uma árvore e ali fica expectante à espera do que possa acontecer. Os dias vão passando e o casulo não surge, mas, teimosa como era, persiste por duas semanas, findas as quais começa a sentir a sua pele a descolar-se do corpo, o que lhe causou uma enorme frustração. Irritada, começa a contorcer-se para se ver livre daquele desconforto, até conseguir libertar-se da totalidade da sua pele…, porém, asas, nem vê-las!
Frustrada, desce da árvore, mais feroz que nunca e tenta caçar todos os animais que encontra pelo caminho, assim como derrubar todas as plantas que lhe surgiam pela frente, procurando a borboleta para dela tirar satisfações, até a encontrar mais adiante, para lhe dizer, com voz mansa:
- Quero reconhecer o meu erro perante ti!
Não surpresa, a borboleta, mesmo assim pergunta-lhe:
- De que erro falas?
Enrolando-se em si mesma, a cobra respondeu:
- De ter acreditado que seria possível não ser uma cobra!
- Saber reconhecer um erro, já é uma virtude! – Respondeu-lhe a borboleta, sem recriminação.
Porém, colocando à prova as verdadeiras intenções da cobra, perguntou-lhe:
- Sentes-te culpada, arrependida do mal que fizeste e remorsos por teres prejudicado todo o jardim?
Perguntas à qual a cobra respondeu:
- Não me sinto culpada por ser uma cobra! Não estou arrependida porque sobrevivi até hoje! E não sinto remorsos porque foi assim que a minha mãe me ensinou!
Moral da história: Uma cobra será sempre uma cobra, por mais que mude a pele, nunca mudará a sua essência.
Mural da história: Nem todo o ser rastejante um dia conseguirá voar.
Pedro Ferreira © 2024
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