quinta-feira, 6 de março de 2025

ESCRITA A SANGUE

Rasgo velhos papéis escritos com palavras inteligíveis;

Apago marcas na areia de momentos de evasão;

Pulo arestas de mágoas escritas a sangue;

Esfumo nuvens de sonhos que já não são meus.





ANÁLISE EXTERNA


Análise Literária:

O poema de Pedro Ferreira utiliza a poesia lírica para expressar sentimentos profundos e introspetivos. Através de imagens poéticas e metáforas, o texto trata da tentativa de se libertar de emoções, memórias e sonhos que já não têm mais valor ou significado para o sujeito.

A estrutura do poema é sintaticamente simples, mas carrega grande intensidade emocional. O uso de paralelismos (as ações que começam com verbos no infinitivo) confere ritmo e coerência à obra, criando uma sensação de ação contínua e deliberada.

Esse estilo é característico da poesia moderna, que, em vez de contar uma história, explora o interior do indivíduo.


Análise Gramatical:

Gramaticalmente, o poema segue uma construção simples, mas muito eficaz:

· Uso de verbos no presente do indicativo ("rasgo", "apago", "pulo", "esfumo") – Isso confere ao poema um tom de ação contínua e imediata, como se o eu lírico estivesse a viver esse processo de libertação ou superação no momento da leitura.

· Uso de metáforas: "Rasgo velhos papéis", "marcas na areia", "arestas de mágoas escritas a sangue" – São exemplos de figuras de linguagem que fazem a leitura mais rica e oferecem uma interpretação além do literal, apontando para uma tentativa de apagar ou transformar experiências passadas dolorosas.

· Estrutura paralelística: A repetição da estrutura verbal no início de cada verso cria uma sensação de continuidade e reforça a ideia de ação repetitiva. Isso ajuda a dar ritmo ao poema e a tornar suas intenções mais claras.

· Ausência de pontuação: O fato de o poema não ter pontuação no final das frases pode ser visto como uma escolha estilística que contribui para o tom fluido e contínuo da reflexão interna. Isso também pode sugerir que o pensamento do eu lírico está a fluir sem interrupções, de maneira quase subconsciente.

· Uso de adjetivos e substantivos fortes: Expressões como "escritas a sangue" e "nuvens de sonhos" são exemplos de como o autor utiliza a língua de maneira impactante, criando imagens viscerais e potentes para intensificar a experiência do leitor.


Avaliação de Interesse do Público:

Em resumo, o poema de Pedro Ferreira, com sua linguagem rica e imagens poderosas, é uma obra que desperta o interesse de um público mais reflexivo e sensível às emoções e temas profundos, sendo particularmente atrativo para os fãs de poesia lírica e moderna.

Este poema é uma obra literária de grande valor, com uma escrita rica e uma forte carga emocional. Embora o estilo e as imagens poéticas possam ser desafiadores para alguns leitores, ele se destaca pela sua profundidade e expressividade.

8.5 (de 0 a 10)


Pedro Ferreira © 2017
(Todos os Direitos Reservados)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

TENHO PENA DE TI

Tenho pena de ti, sabes…

Foram cinco décadas à minha espera para te descobrires. Não tiveste a capacidade de o fazer por tua conta e risco. Qual ser que rasteja a vida inteira se sente confortável quando alguém o tenta tirar do chão?

Vezes sem conta me derreti em suor para que entendesses que a vida decorre entre a terra e o céu, mas tu preferiste continuar a rastejar. Levantares apenas a cabeça não é suficiente quando deixas o corpo estendido, condicionas a profundidade da tua visão, tornando-a incapaz de ver mais ao longe e em teu redor.

Porque não consegues ver para além, tudo em ti é passado. Trazes em cada escama do teu corpo uma mágoa como um manto de parasitas que camuflam a tua falta de autoestima. Podes contorcer-te de todas as formas possíveis e imaginárias, mas nunca te conseguirás levantar sem ajuda.

Fui aquele que tropeçou em ti e sentiu pena do estado em que te encontravas, julgando ser passageiro. Acreditei na metamorfose e esperançoso aguardei poder um dia ver-te as asas. Também falhei, talvez por não ser perito em biologia e confundi-te com uma lagarta.

Depois de mim já nem a cabeça poderás levantar devido ao seu excessivo peso. Por isso o teu rastejar será mais lento e cauteloso, porque agora sabes que algures no mundo existe alguém que já não consegues enganar.

Tentaste dizer-me alguma coisa, mas apenas percecionei os teus ecos de memórias longínquas, delegadas por ascendentes da tua espécie que te ensinaram a arte de manipular. Porém, respondi-te que o bem e o mal não são uma fatalidade que trazemos do ventre materno, mas sim uma opção em vida.

Deus falou-nos de uma serpente que, também, parecia dócil, mas nós humanos, teimosos como somos, arriscamos a sua mordedura. Porém, também, nos falou do homem e da mulher e aí encontramos a diferença, é que mesmo em sofrimento, homem ou mulher poderão reerguer-se, mas a serpente não, nem quando saciada.



Análise Externa

 

Avaliação Literária:

  1. Tema e Abordagem: O texto explora temas como a transformação pessoal, a autoajuda, a evolução, e a reflexão sobre as escolhas de vida. O autor usa uma metáfora forte, num processo de metamorfose que sugere tanto o potencial de mudança quanto a resistência ou impossibilidade de evolução. A referência bíblica à serpente e à queda do homem também adiciona uma camada de reflexão moral e filosófica sobre o comportamento humano, escolhas e consequências.
  1. Estilo e Linguagem: A escrita é introspetiva e carregada de emoções. O autor utiliza uma linguagem poética e simbólica, com frases que buscam provocar uma sensação de lamento e reflexão profunda. Elementos como "rastejar", "escamas", "metamorfose" e "lagarta" são usados não apenas no sentido literal, mas também simbólico, dando ao texto uma densidade maior. A construção de imagens, como a da serpente, é eficaz para estabelecer um contraste entre o "ser que rasteja" e a ideia de superação e mudança.
  1. Tom e Sentimento: O tom do texto é predominantemente melancólico e resignado, mas também há uma sensação de frustração por parte do narrador, que se sente impotente diante da dificuldade do outro em se transformar. A repetição de “tenho pena de ti” ao longo do texto reforça esse tom de compaixão e lamento, criando uma tensão emocional que permeia toda a narrativa.
  1. Metáforas e Simbolismo: A comparação com a serpente é especialmente poderosa, remetendo a um simbolismo bíblico de tentação, mas também de um ser limitado e incapaz de mudança. Essa serpente, ao contrário de outros seres humanos, não pode se reerguer, o que sugere uma resignação ou impossibilidade de crescimento.

Avaliação Gramatical:

Em termos gramaticais, o texto está bem estruturado, com poucas falhas notáveis. A sintaxe é adequada, e as frases são claras, embora, em alguns momentos, a complexidade das construções poéticas possa exigir mais atenção por parte do leitor.

  1. Pontuação: A pontuação é geralmente bem utilizada para criar pausas e ênfases nos momentos de reflexão. No entanto, alguns períodos mais longos poderiam ser quebrados em frases mais curtas para maior clareza e fluidez.
  1. Concordância e Regência: Não há erros flagrantes de concordância verbal ou nominal. A regência está correta em grande parte do texto, com exceção de uma ou outra frase onde a escolha de palavras poderia ser mais natural.
  1. Uso de Pronomes e Preposições: A utilização dos pronomes pessoais, possessivos e demonstrativos está de acordo com as normas da língua, sem grandes desvios.

Avaliação de Interesse Público:

O texto possui um caráter filosófico e psicológico que pode interessar a um público amplo, especialmente aqueles que apreciam reflexões sobre o comportamento humano, o autoconhecimento e a superação. A alegoria da serpente e da lagarta pode ressoar com leitores que buscam entender mais sobre transformação pessoal, limites da capacidade de mudança e as dificuldades enfrentadas por indivíduos em sua jornada de vida.


Conclusão:

De forma geral, "TENHO PENA DE TI" é uma obra literária densa e emocionalmente carregada, com uma forte carga simbólica e reflexiva. A escrita é rica em metáforas e imagens poéticas que provocam a reflexão sobre a natureza humana, o sofrimento e a dificuldade de transformação pessoal. Gramaticalmente, o texto está bem construído, embora algumas passagens possam se beneficiar de uma pontuação mais precisa para maior clareza. Em termos de interesse público, a obra pode atrair leitores interessados em temas de autoconhecimento, filosofia e psicologia, mas também pode ser polêmica devido à sua crítica ao comportamento humano.


Nota 8,5 (0 a 10)

  1. Literatura: O texto é bem escrito, com uma utilização criativa de metáforas e simbolismos. A mensagem filosófica e emocional está bem estruturada e provoca reflexão, o que é um ponto forte. Contudo, há um certo peso na linguagem que pode dificultar a leitura para alguns leitores, o que pode ser um fator a ser considerado.
  1. Gramática: Não há grandes erros gramaticais ou de concordância. O texto está dentro dos padrões da norma culta da língua portuguesa, mas há momentos em que a pontuação poderia ser mais assertiva para maior clareza e fluidez.
  1. Interesse Público: A obra trata de questões universais, como transformação, autoconhecimento e a resistência à mudança. O tema é interessante e pode gerar reflexão, mas o tom de crítica pode ser interpretado de maneira polarizada, o que limita seu alcance a diferentes públicos.

A nota é alta pela força literária e pela profundidade do conteúdo, mas uma maior fluidez no estilo e a diversidade de interpretações possíveis poderiam elevar ainda mais a obra.


Pedro Ferreira © 2025
(Todos os Direitos Reservados)

 

sábado, 7 de dezembro de 2024

A LAGARTA E A COBRA

Algures num pequeno jardim de encantar, existia uma lagarta forte e gorda, porque se alimentava avidamente das folhas das plantas. De tal forma o fez, que decorrido um mês de farto repasto, olhou em seu redor e viu que o jardim lhe parecia triste e descolorido, com as flores a murcharem, despidas das suas folhas e a sua farta “despensa” a ficar vazia.

Ao mesmo tempo sentia-se pesada e vulnerável aos predadores, pois mal se conseguia movimentar de tão gorda estar. Preocupada com a situação e receosa em relação ao futuro, arrependida, sentindo-se culpada pelos danos causados a tantas plantas e a ela própria, repleta de remorsos, começou a pensar na asneira que havia feito e numa solução para reparar o seu estrago.

Recolheu-se num ramo de uma planta e ali se manteve, quieta, pensativa. Foi então, que, de súbito, sentiu o seu corpo a metamorfosear-se, ficando cada vez mais imóvel, mergulhando num longo repouso, parecendo ela própria se ter transformado numa triste folha pendurada como uma das muitas folhas das plantas que devorou. Triste e só, naquele estado permaneceu por algum tempo, como se tudo estivesse perdido, à espera de um fim que parecia ser uma fatalidade, para si e para todo o jardim.

Decorridas duas semanas, sente o casulo que a envolveu a soltar-se e depois a cair no chão, renascendo num corpo diferente, dotado de umas lindas asas de azul brilhante, que de pronto agitou para se erguer no ar num voo estonteante de felicidade. Porém, não se deixou envaidecer, apesar da sua encantadora beleza, pelo contrário, humildemente aproveitou a nova vida para se redimir do estrago causado e rapidamente se dirigiu às plantas do jardim e de flor em flor foi pousando, pedindo desculpa a cada uma delas, oferecendo-se para ajudar a repor o jardim conforme o encontrou, viçoso e colorido, assim como cheio de vida.

A cada nova visita, levava consigo o precioso pólen da vida que espalhou por toda a parte, do qual as flores se alimentavam e rejuvenesciam, dando lugar a novas plantas, permitindo que a vida retomasse o seu estado natural, cumprindo-se assim a missão daquela triste lagarta de outrora, agora uma linda borboleta admirada e desejada por todas as plantas e restantes animais daquele jardim.

Por ali, andava uma pequena cobra, sempre atenta a todos os movimentos, portanto, não lhe passou despercebido todo o processo da lagarta até ser borboleta e consequente feito em benefício do jardim. Era uma cobra, naturalmente, temida por aqueles lados, ora pelas plantas que se sentiam derrubadas e magoadas à sua passagem, ora pelos outros animais que sabiam que a qualquer momento poderiam ser caçados. Curiosa com tamanho feito, foi ter com a borboleta e perguntou-lhe…

- Linda borboleta, diz-me uma coisa: Como conseguiste essas belas e tão admiradas asas azuis que te ajudaram a fazer todas estas maravilhas?

Assustada, mas sob a defesa da sua capacidade de voar que lhe permitia um afastamento seguro em caso de ataque, a borboleta respondeu:

- Não foi fácil, reconheço! O mais importante é sabermos conhecer os nossos erros, assumir a responsabilidade do mal que causamos, acreditando que podemos ser melhores daí em diante e não perder a oportunidade de compensarmos a quem prejudicamos, repondo as coisas como estavam. Assim, ganhamos asas, que poderão ser azuis, ou de outra cor qualquer, grandes, ou pequenas, vistosas ou nem por isso, não importa! O que importa é que sejam asas que nos libertem e nos ajudem a viver com tranquilidade, evitando que sigamos o resto da vida na prisão de uma consciência pesada.

A cobra, por momentos, sentiu um rebate de consciência, porque afinal de contas, também, ela já tinha feito muito mal a tantas plantas e animais daquele jardim, do qual voltava a beneficiar grandemente por via dos grandes feitos da borboleta. Então, pensou fazer o mesmo que a borboleta fez para tentar redimir-se de todo o mal…

- Achas que se fizer como tu, ficar pendurada numa planta durante uns tempos, também, consigo ganhar asas e voar? – Mais acrescentando – Afinal de contas, sou como tu eras, de corpo cilíndrico, que rasteja entre as plantas, torcendo-o!

- Tenta, porque como te disse antes, não importa como são as asas, o importante é o que fazes delas. Boa sorte! – Assim lhe respondeu a borboleta, em jeito de despedida, voando para longe.

Repleta do seu orgulho e da sua vaidade, não querendo dar parte de fraca, iludida pela ideia que poderia conseguir igual feito, a cobra decide colocar em marcha o seu plano. Pendura-se imóvel num ramo de uma árvore e ali fica expectante à espera do que possa acontecer. Os dias vão passando e o casulo não surge, mas, teimosa como era, persiste por duas semanas, findas as quais começa a sentir a sua pele a descolar-se do corpo, o que lhe causou uma enorme frustração. Irritada, começa a contorcer-se para se ver livre daquele desconforto, até conseguir libertar-se da totalidade da sua pele…, porém, asas, nem vê-las!

Frustrada, desce da árvore, mais feroz que nunca e tenta caçar todos os animais que encontra pelo caminho, assim como derrubar todas as plantas que lhe surgiam pela frente, procurando a borboleta para dela tirar satisfações, até a encontrar mais adiante, para lhe dizer, com voz mansa:

- Quero reconhecer o meu erro perante ti!

Não surpresa, a borboleta, mesmo assim pergunta-lhe:

- De que erro falas?

Enrolando-se em si mesma, a cobra respondeu:

- De ter acreditado que seria possível não ser uma cobra!

- Saber reconhecer um erro, já é uma virtude! – Respondeu-lhe a borboleta, sem recriminação.

Porém, colocando à prova as verdadeiras intenções da cobra, perguntou-lhe:

- Sentes-te culpada, arrependida do mal que fizeste e remorsos por teres prejudicado todo o jardim?

Perguntas à qual a cobra respondeu:

- Não me sinto culpada por ser uma cobra! Não estou arrependida porque sobrevivi até hoje! E não sinto remorsos porque foi assim que a minha mãe me ensinou!


Moral da história: Uma cobra será sempre uma cobra, por mais que mude a pele, nunca mudará a sua essência.

Mural da história: Nem todo o ser rastejante um dia conseguirá voar.




Pedro Ferreira © 2024
(Todos os Direitos Reservados)

quinta-feira, 5 de setembro de 2024

ASSIM TENHO SIDO - Parte 14

Homem pai é um alvo a abater – este é o lema que dá o mote ao ciclo de vida que ora encerro.

Separei-me, de forma pacífica, da mãe da minha filha e do meu filho, vai para mais de uma década e, igualmente de forma pacífica, os rebentos ficaram ao meu cuidado, num processo de continuidade, na medida em que fui sempre eu à cabeça da resolução e das suas necessidades mais elementares… e até aqui tudo bem!

Porém, como devem imaginar, uma vida de pai a tempo inteiro, de menina e de menino, com diferença de cinco anos entre eles, não é tarefa nada fácil por si só, ademais numa fase da humanidade dominada por pessoas de carácter muito duvidoso.

Desde então, ponderei a hipótese de ter uma companheira, naturalmente ficando recetivo a isso, a coisa mais normal num homem na minha situação, sempre focado num ideal de família em amor e entreajuda, não olhando a quem, mas sim às intenções e sentimentos. Ao abrigo desta disponibilidade, foram-se aproximando de mim, algumas “senhoras”, aparentemente imbuídas do mesmo espírito, a quem dei a devida atenção para aferir se se confirmavam as suas apregoadas boas intenções.

Salvo raríssimas exceções, existe um denominador comum entre todas elas, ou seja, vinham autorrotuladas de “grandes mulheres e de grandes mães”, vítimas de um passado afetivo desastroso, em que o “bandido” do ex-marido as maltratou ou desprezou os filhos, tornando-as “corajosas guerreiras”, que “sozinhas e a pulso” criaram os filhos sozinhas. Tretas!!!

Na verdade (aquela que, mais momento, menos momento, vem sempre ao cimo), se eu tivesse a ajuda dos papás, da choruda pensão de alimentos do progenitor das crianças e recebido uma boa herança, também hoje seria um “corajoso guerreiro”, mas, como nada disso me calhou em sorte, quedei-me, simplesmente, pelo título de Pai, sem vanglória, de forma muito honrada e honesta, portanto.

Não obstante, tornei-me, com o decorrer destes longos anos de dedicada paternidade um alvo muito apetecível para essas “senhoras”, porque as carências delas vão-lhes causando alguma agitação e não lhes convêm, para se satisfazerem, apresentarem-se socialmente e perante a família ao lado de um qualquer, mas sim de um Homem bem parecido, de preferência o contrário do ex, ou seja, um leal companheiro e um bom pai.

Daqui ao uso, abuso e, por último, deita fora, vai um passo muito curto. Porém, mesmo sendo “muito bonzinho", não me tomo por tonto e estive sempre atento às movimentações que confirmassem as palavras revestidas de tão boas intenções e, logo logo, fui constatando exatamente o contrário.

Vindo dessas “senhoras”, houve de tudo um pouco, nomeadamente das que têm a vida mais folgada, ou seja, dinheiro, títulos académicos, categorias profissionais elevadas e afins, a saber: ameaças de me denunciarem como pai incompetente, em jeito de vingança por terem ouvido um “não”; ameaças com processos judiciais, por crimes que não conseguiam indicar quais, apenas porque ouviram umas verdades; tentativas de me comprarem e aos meus filhos com ofertas e donativos monetários, quando se aperceberam que aqui não poderiam “deitar as garras” (entenda-se, unhas de gel); processo judicial na tentativa de reaver prendas materiais que me deram e aos meus filhos, só porque não permite que nos comprassem; uso e abuso da minha boa-vontade em ajudar, para de seguida fingirem que nem sequer me conhecem; usufruto pleno dos meus bens e consequente ingratidão virando costas; abandono em momentos difíceis e logo após extrema dedicação de minha parte; vocábulos ordinários após ouvirem um “basta”; e, de entre tantas outras coisas mais, a mais ignóbil de todas, o uso do nome de Deus em vão para me enganar, tirando partido da minha fé.

Existiu, efetivamente, de tudo um pouco daquilo que existe de mais perverso e promiscuo na mente humana e chego a esta fase da vida, convencido que já pouco, ou mesmo nada me resta ver daqui em diante, porque já foi aberrante demais aquilo que me passou pela frente, todas chegando dizendo horrores daquilo que as outras fizeram e saindo fazendo bem pior, com o único propósito, comum a todas, o de usarem e abusarem a seu bel prazer para depois deitarem fora, sem apelo, nem agravo.

Dizem que são lições de vida e que com elas se aprende sempre qualquer coisa. Discordo e digo-o com elevada experiência no assunto, bem pelo contrário, existem relações interpessoais que nada de novo trazem, nem pela negativa, é um padrão demasiadamente conhecido de mero oportunismo, que rola ao longo de gerações.

Claro está que, por ser um curioso nas questões da mente, não é por se tratarem de situações que vivi na primeira pessoa, que deixei de me interessar por estes fenómenos e seus profundos meandros, vindo a descobrir aspetos da mente muito interessantes e inquietantes ao mesmo tempo e que me preparam sobremaneira para novos embates, portanto, a existir alguma aprendizagem, apenas a mim o devo e não a quem passou. Hoje, domino minimamente muitos desses fenómenos que ocorrem em tantas cabeças que por essas veredas do mundo deambulam, desde o Transtorno de Personalidade Borderline, até ao Comportamento Passivo-agressivo, passando pelo Transtorno de Deficit de Atenção e Hiperatividade, como ainda, a Psicopatia, o Narcisismo a rodes e seus congéneres, características, cada qual de persi, justificando as atitudes aberrantes ora aqui descritas.

Entretanto, contra todos estes atentados a um Pai dedicado, já consegui ver a minha filha formada em Psicologia (só poderia), o meu filho com o 12º ano feito com apenas 17 anos de idade e a caminho, quiçá, da Psicologia, também (só poderia), mantendo um trabalho de risco, o nosso único sustento, em crescendo e cada vez mais consolidado, assim como paz familiar e, acima de tudo, de consciência tranquila, principalmente perante Deus e nada mais peço para mim, nem gratidão, nem reconhecimento, nem sequer respeito, porque até nisso aprendi a bastar-me sem o esperar de ninguém.

Abre-se assim novo ciclo de vida, que antevejo muito focado na família e em todas as suas mais prementes necessidades, porque os filhos partem e os pais adoecem pela idade, esperando conseguir marcar presença em ambos os cenários da melhor forma que posso e sei e assim mo permitam, sempre ao sabor da vontade divina, porque dos humanos é um risco que não quero voltar a correr.




Pedro Ferreira © 2024
(Todos os Direitos Reservados)

quarta-feira, 24 de abril de 2024

TEMPUS DE ALMAS DESORIENTADAS

Decorre no mundo uma espécie de tsunami de resíduos que invade milhões de almas e que as deixa inundadas de toxicidade…

É o tempo do vale tudo!

Simpatia vale em toda e qualquer circunstância, até na antipatia. Quem ainda não ouviu, “é assim, diz e faz aquelas coisas desagradáveis, mas até é uma pessoa simpática”?

O feio deixou de fazer sentido, porque hoje em dia é tudo bonito, até o mais grotesco objeto se reveste de uma beleza sem fim, “tudo depende dos olhos de quem vê”, dizem!

Fazer o bem tornou-se transversal, até quando se comete o pior dos atos, pois – dizem, também – tudo depende do ponto-de-vista de quem analisa.

Até a verdade parece ter anulado em definitivo a mentira. Tudo passou a ser verdade! Aliás, consta que cada pessoa tem a sua…

A palavra ridículo caminha a passos largos para fora dos dicionários por ter perdido o seu significado, na medida em que hoje em dia tudo é aceite como razoável.

E os animais irracionais que passaram a ser humanizados ao ponto de já serem considerados superiores a todos os níveis aos humanos…

A esta altura deste raciocínio, já impera a questão: “será na mesma onda da corrente que defende um só género”?

E o amor… ai o amor!!! Esse, passou a estar em todo o lado, mesmo onde existe desamor e ódio. Pessoas à boca cheia o gritam, quando na alma ecoa a raiva!

Até a loucura, é a mais desejada – “gosto de gente louca!” – em detrimento da sanidade inerente às pessoas que se dão à vida, em múltiplos atrevimentos e aventuras.

Que mundo este tão monocórdico e monocromático que estamos a criar? Uma mesma palavra é transversal a todos os sentires, a todas as definições, a todas as crenças…

Não era suposto estarmos a criar um mudo mais aberto e diversificado, em total respeito pelas diferenças! Estou a ver a humanidade a caminhar em sentido contrário ao que apregoa.

Por este andar, qual vai desaparecer e qual vai prevalecer: a mulher ou o homem; o ser-humano ou o animal irracional; a verdade ou a mentira; o certo ou o errado; a beleza ou a feiura; o natural ou o artificial; o normal ou o anormal; a sanidade ou a loucura; a bondade ou a maldade; etc… etc…

Pode estar a dar-se o caso de já termos passado a fase de criarmos robôs à nossa semelhança e agora estarmos a inverter papeis, a criarmos seres-humanos à semelhança de robôs.

Porém, talvez ainda exista a esperança que se trate de apenas uma fase menos boa que a humanidade atravessa, em que as almas andam desorientadas, quiçá porque há muito que se perde o vínculo com a espiritualidade, campo onde felizmente ainda se usam todos os sons, todos os sabores, todos os aromas, todas as texturas, todas as cores, no fundo todos os sentires, ou seja, a vida na sua plenitude.



Pedro Ferreira © 2024
(Todos os Direitos Reservados)

 

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

PALAVRAS INCAPAZES

Palavras incapazes…

de fazerem a leitura do brilho no olhar mediado pelo breve momento de um pestanejar que encerra o adormecer e abre o despertar;

de descreverem o sorriso que se esconde na madrugada quando os lábios se reencontram;

de decomporem por parágrafos o longo abraço de uma noite;

de decifrarem o aroma do fruto dos múltiplos sentires a dois;

de comporem um texto escrito pela ponta dos dedos de quatro mãos sobre a pele em branco;

de serem ouvidas para alem do pulsar dos corações;

de colocarem vírgulas enquanto se deleita no sabor a nós;

de encontrarem pontos quando não existe um princípio nem um fim.



Pedro Ferreira © 2017
(Todos os Direitos Reservados)

sábado, 18 de novembro de 2023

RESPEITO PELA IGUALDADE

Ao abrigo do respeito pela diferença, muitas vezes se fomenta o desrespeito pela igualdade.




Pedro Ferreira © 2015
(Todos os Direitos Reservados)

sábado, 28 de outubro de 2023

ASSIM TENHO SIDO - Parte 3

A vida em Portugal não estava fácil por essa altura, principalmente para os retornados, logo eu, como refugiado, levava por tabela. Cruéis e ignorantes, como muitos portugueses são, não facilitavam e só faltava apedrejarem-nos, porque insultos era coisa que não faltava, na medida em que receavam que esta massa humana vinda das ex-colónias lhes “roubassem” os rendimentos que de lá enviávamos;

O governo de então, por piedade, lá nos deu dois cobertores que tive de ir levantar numa fila enorme à Câmara Municipal e nada mais que isso! Felizmente a família e os amigos, mais uma vez, marcaram presença num momento de maior dificuldade, caso contrário, muita fome e frio teríamos passado.

E eis que surge uma surpresa…, vida!!! Outra mana que vinha de África na barriga da mãe! Mas, e agora, como vai ser, mais um corpo, por pequenino que seja, somente com dois cobertores? Tudo se arranja! Foi assim que o Pedro aprendeu a fazer arroz de salsichas para todos e a mudar fraldas que depois lavava no tanque de cimento até ficar com as mãos gretadas e o nariz vermelho pela fria aragem de inverno que por aquelas paragens à época se fazia sentir.

Brinquedos, não tinha, e da idealizada cidade de paus e pedras desisti por falta de material de construção…, dediquei-me à caracoleta! Ou seja, fazia corridas com os caracóis grandes lá do quintal da minha avó e melhor diversão não havia…, minto! Lembrei-me agora, por falar na minha avó materna, que fazia anos no mesmo dia que eu, uma matriarca que amo, mesmo que já tenha partido há muitos anos deste mundo, que me proporcionava uma diversão ainda melhor, as famosas "sopas de cavalo cansado", que consistia em algo para comer numa tijela de barro, composto por vinho verde tinto, pão e açúcar…, ui!!! Isso é que era uma diversão, pois a mãe nem poderia imaginar que a avó me tratava tão alegremente!

Como sobraram algumas moedas de Angola, dinheiro em tudo semelhante ao de cá, apenas mudavam as figurinhas (os angolares), o espertalhão do Pedro lá lhes dava alguma utilidade e toca de ir comprar chocolates que custavam 1 escudo na mercearia da frente, aqueles retangulares fininhos com uma prata que tinha um calhambeque estampado..., quem não se recorda? Pois, o dono da mercearia via mal e o negócio ia sendo possível até se começar a estranhar na vizinhança o facto da demasia da mercearia ter um design diferente do habitual…, só poderia ser obra dos “malditos retornados”!

Mas como o meu tio (2º Pai) pedia-me para ir à mesma mercearia buscar meio-quartilho de tinto para o jantar, pago com moedas de verdade, a coisa lá disfarçou. Só não consegui disfarçar a falta de tinto no percurso de volta, não sei porquê, o meu tio parece que media o vinho e dava sempre por falta daquele que entornava pelo caminho, para depois me perguntar porque trazia os lábios pintados de vermelho…, tinto!

Continua…



Pedro Ferreira © 2020
(Todos os Direitos Reservados)