Nemat Safavi, não pôde sair da sua terra para assistir ao concerto de Zara Larsson no NOS Alive, tampouco para poderem dançar juntos no palco e receberem aplausos sem fim, não por uma questão de distância, mesmo que Ardabil diste a uma mui superior distância do Passeio Marítimo de Algés, do que dista Braga, mas sim porque está desaparecido algures, presume-se que em território iraniano, quiçá, até, já sem vida, ou na melhor das hipóteses, detido e acorrentado num qualquer buraco daquele imenso país.
Nemat, ao contrário do mais recente jovem herói português, para quem não sabe, nunca pôde ter a liberdade de dançar e de cantar, nem sequer de ser quem é, porque não vive sob as leis de uma democracia, mas sim sobre as leis de uma teocracia radical.
A propósito do momento de felicidade do jovem Afonso, encheram-se páginas e páginas nos diferentes órgãos de comunicação social em Portugal, assim como se deu azo, ao desfile de um rol de comentários para todos os gostos, dos mais agradáveis, à lama e, assim, de um momento para o outro. Afonso, do anonimato passou ao estrelato, reunindo fãs por todo o país e naturalmente muita inveja.
A felicidade, seja de quem for, causa, efetivamente, muita inveja num considerável número de pessoas de mente perturbada, por isso, este momento de palco para Afonso foi amplamente aproveitado por essas mentes para debitarem considerações e insultos menos abonatórios de cariz sexual sobre este jovem, com base numa dedução sobre a sua orientação sexual que, à partida, desconhecem, gerando comentários fortemente homofóbicos.
Felizmente, Afonso vive num país livre – também, muito libertino, a verdade seja dita! – e, de pronto e bem, a nação se levantou em defesa deste jovem: desde o cidadão comum até várias figuras públicas, uma multidão se insurgiu contra esses insultos, condenando-os vivamente, num movimento de forte cobertura mediática e, igualmente, muito bem.
E o Nemat? O Nemat, entretanto, continua desaparecido e ninguém fala dele, simplesmente porque com 16 anos de idade foi condenado à morte ao abrigo do 108.º a 111.º do antigo Código Penal Islâmico do Irão, mais conhecido pelo Lavat, figura penal aplicada a relações sexuais entre homens.
Mesmo que a detenção de Nemat tenha ocorrido em 2006, é apenas um dos muitos exemplos que se poderiam dar de histórias que ainda decorrem de jovens cujo único palco que conheceram foi o terror, simplesmente porque a sua orientação sexual é a que sentem.
Indignação gera indignação! Um dos aspetos que mais sobressai deste espetáculo mediático tendo como protagonista o jovem Afonso é que a indignação cai exatamente sobre a indignação gerada em virtude dos comentários menos agradáveis sobre o Afonso… então, mas em que mundo vivem esses indignados?
Num mundo repleto de histórias como as de Nemat, como de outras, em que jovens e crianças são chacinadas só porque sim, sem dó nem piedade, existem assim tantas pessoas indignadas com os ataques verbais ao Afonso!!!
É caso para perguntar, porque é que o caso do Afonso merece todo este mediatismo e o de Nemat não? Será que existem jovens que são mais gente que outros…
É uma indignação!
Análise Externa
Qualidade literária
Aqui o texto é bastante acima da média.
Feliz particularmente em expressões como: "o único palco que conheceram foi o terror". É uma metáfora muito feliz.
Também funciona: "do anonimato passou ao estrelato". É uma construção simples, mas eficaz.
Há igualmente um bom uso do ritmo através de frases longas interrompidas por perguntas curtas.
Contudo, há um excesso de intensidade. Praticamente todos os parágrafos procuram atingir o ponto máximo da emoção. Quando tudo é intenso... nada sobressai verdadeiramente.
Um ou dois momentos de maior contenção dariam ainda mais força aos restantes.
Originalidade
Um dos pontos mais fortes.
Não é frequente encontrar um texto que ligue um episódio mediático português ao caso de um jovem iraniano desaparecido.
A associação é inesperada e desperta curiosidade.
Impacto emocional
Muito forte. Sobretudo devido ao contraste permanente entre: palco; liberdade; aplauso; prisão; desaparecimento.
É claramente o elemento mais conseguido do texto.
Classificação global: 9,0/10
Considero que este é um dos textos mais fortes que apresentou. O seu principal mérito está em criar uma ligação inesperada entre um acontecimento amplamente mediatizado em Portugal e um caso praticamente desconhecido, levando o leitor a refletir sobre a atenção desigual que diferentes histórias recebem.
As melhorias que mais elevariam o texto seriam sobretudo de lapidação: moderar ligeiramente a intensidade de certas passagens para aumentar o poder persuasivo junto de leitores que não partilhem, à partida, a mesma perspetiva. Essas alterações reforçariam a credibilidade do texto sem diminuir a sua carga emocional.
Pedro Ferreira © 2026
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