Qualquer humano, pela vida fora, vai conhecendo múltiplas casas: em umas vive; noutras apenas entra e sai; e noutras ainda apenas passa.
A primeira casa que habitamos é o coração de quem nos ama — sobretudo de quem nos desejou e nos acolheu aquando da nossa chegada a esta casa comum que é o mundo. É o coração de quem nos ofereceu o colo como primeira casa de afetos e nos garantiu a sobrevivência entre as suas paredes.
O lar que nos acolhe é a alma de qualquer casa. Nele fortalecemos laços e é do seu interior que saímos mais fortes para descobrirmos o mundo repleto de outras casas.
Uma casa como mero espaço físico, sem ser um lar, é, portanto, apenas um espaço vazio, de paredes erguidas, que nos confronta dia e noite com a frieza dos seus materiais.
Não precisamos de formação em engenharia civil, nem de dominar a arte da construção, para edificarmos casas sólidas e confortáveis. Quem tem coração tem sempre uma casa aberta para acolher quem está desabrigado.
Nos conturbados dias que a humanidade atravessa, marcados por desavenças e conflitos de vária natureza e a diferentes escalas, são muitas as pessoas que gostariam de ser abrigadas das intempéries, aconchegadas num lar, confortadas num colo e protegidas entre paredes.
Enquanto não se abrirem mais casas — as suficientes para que ninguém fique de fora —, acreditemos na nossa criatividade e pintemos um lar de múltiplas cores onde caiba a humanidade inteira.

Execução de pintura a Óleo sobre Tela da autoria de Pedro Ferreira
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No passado dia 27 de maio de 2026, procedeu-se ao lançamento da 34ª Edição da Revista “defacto”, pelas 15:30h no Auditório Sebastião Alba da Escola Secundária de Alberto Sampaio em Braga, projeto da autoria da Equipa editorial da Revista “defacto” e da Direção do Agrupamento de Escolas a que pertence o referido equipamento.
Convite
A minha participação neste projeto resulta de um amável convite endereçado pela minha estimada amiga Prf.ª Maria José Teixeira, que me desafiou a escrever um texto sobre o tema deste ano, “A Casa”. De pronto aceitei de bom grado o desafio e aqui com os meus leitores partilho o resultado final, na esperança que seja do inteiro agrado.
Acrescento umas palavras para a mentoria da “defacto” e respetiva continuidade ao longo dos anos, enaltecendo o valioso trabalho aqui desenvolvido, cuja qualidade me parece estar ao nível de muitas outras publicações de âmbito nacional, com um especial destaque para o grafismo, marcado por uma opção monocromática que resultou em pleno, tornando este documento muito apelativo apesar de singelo, destacando-se a brilhante qualidade fotográfica da responsabilidade da Maria José.
"defacto, com tamanha obra desenhada, com voz vida e pessoa!
Que bom teres dito que sim, que bom seres defacto connosco!..."
Prf.ª Maria José Teixeira
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Cerimónia de Lançamento
Prf. João Andrade
(Direção)
Prf.ª Vânia Coutinho
(Edição)
Prf. Jorge Marques
(Edição)
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Análise Externa
O texto apresenta uma reflexão de natureza filosófica e poética sobre o conceito de “casa”, deslocando-o do seu sentido físico para uma dimensão afetiva, simbólica e ética.
Em termos de conteúdo, a ideia central é a distinção entre “casa” como estrutura material e “lar” como espaço emocional.
O autor começa por amplificar a noção de habitar, sugerindo que ao longo da vida o ser humano passa por diferentes “casas”, algumas habitadas de forma plena e outras apenas passageiras:
Esta abordagem inicial estabelece um enquadramento existencial sobre a experiência humana do espaço e da pertença;
Segue-se uma progressiva focalização na primeira “casa” do ser humano: o cuidado parental. Essa casa não é física, mas sim o “coração de quem nos ama”, enfatizando o início de vida como fundamento da sobrevivência e da identidade emocional. Aqui, o texto assume uma dimensão afetiva forte, associando a infância a um espaço de proteção e amor familiar;
A partir daí, o autor constrói uma oposição entre casa e lar. A casa é apresentada como mero espaço físico, potencialmente frio e vazio quando desprovido de vínculos humanos. O lar, por outro lado, é definido como o elemento essencial que dá significado à casa, sendo descrito como o lugar onde se fortalecem laços e de onde o indivíduo ganha força para enfrentar o mundo;
Surge depois uma ideia de acessibilidade moral da construção do lar. O texto defende que não são necessárias competências técnicas para “construir” casas no sentido afetivo, mas sim capacidade humana de acolhimento e empatia. Isto introduz uma dimensão ética: qualquer pessoa com coração pode ser agente de abrigo para outros;
Na parte final, o texto ganha um tom mais social e crítico. Faz referência implícita a contextos de conflito e instabilidade no mundo contemporâneo, sugerindo a existência de muitas pessoas sem abrigo emocional ou físico. O apelo final é coletivo e simbólico: a criação de uma espécie de “lar global”, inclusivo, onde ninguém fique excluído.
Em síntese, trata-se de um texto reflexivo, de linguagem poética e argumentativa, que articula três eixos principais: a construção da identidade através do afeto inicial, a distinção entre espaço físico e espaço emocional, e uma mensagem ética de acolhimento universal.
Linguagem e estilo
A nível literário e estilístico, o texto constrói-se sobretudo a partir de uma linguagem de natureza poética, marcada por forte expressividade simbólica, assente na predominância de metáforas, na utilização de antíteses e numa progressiva personificação do conceito de “casa”, que se afasta do seu sentido físico para adquirir uma dimensão afetiva e ética.
Metáforas
As metáforas constituem o recurso dominante, sendo responsáveis pela densidade conceptual do texto:
“Coração de quem nos ama” - O “coração” funciona como metáfora do espaço afetivo de acolhimento, lugar simbólico do amor, cuidado e proteção primária. Confere ao texto uma dimensão intimista.
“Casa comum que é o mundo” - O mundo é conceptualizado como uma casa partilhada pela humanidade. Trata-se de uma metáfora de universalidade e pertença coletiva, reforçando a ideia de interdependência humana.
“Colo como primeira casa de afetos”- O “colo” surge como metáfora do acolhimento primordial, associando-se à segurança, proteção e dependência inicial, conferindo uma tonalidade afetiva e de ternura.
“Lar é a alma de qualquer casa”- O “lar” é elevado a princípio vital da casa, distinguindo-se da sua dimensão física. A casa surge como estrutura, enquanto o lar representa o elemento invisível que lhe confere significado.
“Casa vazia, de paredes erguidas” - A casa é reduzida à sua materialidade, simbolizando ausência de afeto e de vivência humana. A metáfora acentua a oposição entre espaço físico e espaço emocional.
“Pintemos um lar de múltiplas cores”- O lar é associado à criação e imaginação coletiva, sugerindo diversidade, inclusão e abertura ao outro.
Antíteses e relações de oposição
As antíteses contribuem para a organização de contrastes fundamentais no texto.
“Entra e sai”- Sugere movimento oposto dentro de um mesmo espaço, evocando instabilidade e transitoriedade.
"Casa/lar" - Constitui a antítese estruturante do texto: "casa" como realidade física versus "lar" como realidade afetiva.
“Habitar / apenas passar”- Contraste entre pertença e transitoriedade.
“Dia e noite” - reforça a ideia de que a frieza da casa vazia se impõe de forma permanente, sem interrupção.
Personificação
A casa é apresentada como entidade capaz de acolher ou confrontar, adquirindo características humanas. Este recurso reforça a fusão entre espaço físico e universo emocional.
Campos lexicais
Verifica-se a presença de campos lexicais contrastivos:
Afeto e humanidade: coração, amor, colo, lar, acolher, laços.
Espaço e construção: casa, paredes, erguidas, abrigo .
Movimento e experiência: entra, sai, passa, habitar.
Conflito e instabilidade: conturbados, desavenças, conflitos, intempéries.
O contraste entre estes campos reforça a oposição central entre frieza material e calor humano.
Conclusão estilística:
O texto apresenta um registo claramente poético, com predominância de metáforas conceptuais e uma tonalidade reflexiva e humanista. A expressividade resulta sobretudo da reconfiguração simbólica da “casa”, que deixa de ser entendida como espaço físico para se afirmar como construção afetiva e ética, constituindo-se como símbolo da condição humana e da necessidade universal de acolhimento.
Casimira Faria
(Professora de Português e Literatura Portuguesa)
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