A vida dos humanos aparenta ser composta de ciclos: enquanto o atual se vai fechando, o seguinte se vai abrindo.
Nenhum ciclo é igual aos anteriores, nem de outra forma faria sentido, sob pena de se perder o propósito da renovação. No entanto, a cada novo ciclo, acontece sempre algo que se repete, com outras personagens noutro espaço. Entre ciclos, se vão formando elos, que são as relações de lealdade que ciclo após ciclo passam connosco todas as etapas da vida, quer sejam boas, ou más.
Outras relações, porém, quedam-se por um ciclo apenas, são aquelas que surgem e se destacam nesse período. Quando findas, apenas fica a passagem de alguém que representou uma espécie de personificação de uma matéria de estudo que ainda nos faltava assimilar. Em certos casos, levando com elas tudo que estava a mais na nossa vida, incluindo pessoas em quem acreditávamos.
A cada transição de ciclo, tudo retoma o seu lugar ideal: as pessoas ficam com quem mais se identificam; e as coisas são mero usufruto passageiro.
Pessoas bem-intencionadas, até prova em contrário, confiam, permitindo que a cada ciclo que se abre, entrem nas suas vidas outras personagens de uma nova realidade: umas são genuínas, porque máscara não ostentam e essas não passam, essas ficam, tornam-se os tais elos, ciclo após ciclo; outras, que, por sua vez ostentam máscaras, gradualmente se vão revelando ao mesmo ritmo que o ciclo a que pertencem se vai fechando.
Subjacente a estas mudanças inerentes à própria vida, - naturalmente de quem a vive, na medida em que existe quem apenas sobreviva -, prevalece a essência que nos define, imutável, que corre todos os ciclos, pela qual não carece de qualquer exercício de certificação, pois a obra vai respondendo pelo seu autor.
Invejar quem tem obra bem-feita é algo comum entre humanos menos conseguidos, por tal, quem se realiza vê-se, frequentemente, invadido no seu tempo e espaço por quem, também, assim gostaria de ser e não consegue. Numa atração fatal, que começa pelo encantamento de quem acolhe a ideia ilusória de admiração e que acaba com a dura revelação de uma tentativa de usurpação do mérito dos humanos de bem com a vida. Daí à reativação é um passo, pois, assim que a máscara cai, sobressai o lema: “já que melhor não se conseguiu ser, tenta-se denegrir quem o é”.
Ao respirar-se o ar puro do início de um novo ciclo, após a libertação do espartilho do anterior, surgem os efeitos da fé: tudo aquilo que foi invejado, ou que sofreu a tentativa de dano e humilhação, apresenta-se agora revigorado.
Serão as tais energias de que tanto se fala?! Talvez! Certo, é que quando na presença de alguém que não é de paz e que está mal-intencionada, de facto, tudo parece emperrar ao nosso redor. Em contrapartida, quando longe dessas pessoas, a magia acontece e a energia positiva é renovada, crescendo a cada novo dia em plena liberdade.
Retribuir a doce sabedoria que se recebe é revelar este pequeno triunfo da renovação, patente no rosto de quem amamos, no trabalho que de súbito recebe um forte incentivo, no ambiente de paz que se gera por onde passamos e de tantas outras sensações boas que anunciam um passo em frente.
É isto que os sábios esperam quando nos transmitem a sua sabedoria: que ela aconteça!
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Análise Externa
O texto apresenta uma reflexão de natureza filosófica e ensaística, construída em torno da metáfora central dos “ciclos” da vida.
Destacam-se:
- Unidade
metafórica: a ideia de ciclo funciona como eixo estruturante e permite
organizar a experiência humana em renovação, aprendizagem, relações e
superação.
- Tom
reflexivo e sentencioso: há uma voz autoral segura, que formula
generalizações sobre a condição humana e procura conduzir o leitor a uma
conclusão.
- Progressão
temática: o texto evolui do conceito geral de ciclo para as relações
humanas, depois para a inveja e a adversidade, e finalmente para a
renovação e a sabedoria. Há, portanto, uma trajectória de perda →
aprendizagem → libertação → renovação.
- Linguagem:
é predominantemente abstracta e conceptual, com vocabulário de forte carga
reflexiva (“essência”, “propósito”, “renovação”, “sabedoria”, “mérito”,
“liberdade”). Em contraponto, algumas imagens concretas — “máscara cai”,
“espartilho do anterior”, “respirar o ar puro” — dão maior dimensão
literária ao discurso.
- Ritmo:
a extensão de alguns períodos e a abundância de orações subordinadas
conferem-lhe um ritmo deliberadamente ponderado, embora por vezes
excessivamente denso. Há frases que poderiam ser mais enxutas sem perder
profundidade.
- Fecho:
o final é particularmente conseguido. A passagem de uma reflexão sobre a
sabedoria para “que ela aconteça!” transforma a ideia abstracta numa
conclusão simples, afirmativa e quase aforística.
Literariamente, a maior força do texto está na
coerência da sua metáfora central e na capacidade de transformar experiências
pessoais em reflexão universal. A principal fragilidade está em alguns momentos
de excesso discursivo e explicativo, nos quais a literatura cede lugar à
argumentação.
No conjunto, é um texto de prosa reflexiva, filosófica e confessional, com uma voz autoral bem definida e uma intenção clara de transformar experiência vivida em ensinamento.
Pedro Ferreira © 2020
(Todos os Direitos Reservados)

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